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Full text of "Gaùchadas e gaùchismos. Ilus. por C. Castells. 2. ed., accrescida de versos da ultima Revolução rio-grandense"

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PIÁ DO SUL 



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ísmos 



2,^ EDIÇÃO 

accrescída de versos da ultima 
revoítíção río-grandense 



ILLUSTRADA POR 

C CASTELLS 






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Xbi^ARy 



/^ 



PREFACIO DA 1/ EDICAO 



Peço aos leitores que não vejam na publicação destes 
versos uma exhibição poética, porque poeta não sou. 
E' uma simples exhibição de versos, com a pretensão 
de dizer que ha mais uma alma, entre as devotadas ao 
Rio Grande, que vive delle e para elle. 

O poeta é um sábio capaz de decompor a alma das 
cousas para extrahir delias a poesia, como o chimico a 
atmosphera para ter os seus corpos simples. Um poeta 
é isso. Eu não sou mais do que versejador que conta 
as syliabas nos dedos. 

O leitor que quizer saber por que fiz imprimir versos 
ocos, que procure entre elles o amor peio Rio Grande 
e o orgulho de ser delle. 

Quem o achar terá no achado a explicação; e a quem 
não, deixo a certeza da minha ingenuidade no cultivo 
de um affecto já fora de moda, porque morto ha muito 
tempo, — o amor á gleba. 

Que estes versos sejam o peior da alma de qualquer 
poetastro moderno é bem possível. Mas, sendo o me- 
lhor da minha, na falta de melhores obras com que 
exalte o Rio Grande, os meus pagos e o gaúcho, vão 
para elles (de onde vieram) animados da sim.plicidade 
de quem ama, e da esperança de agradar. 

Si ha nos meus versos alguma poesia, foi hauri-!' ^ 



4 GAUCHADAS E CALCHIiiMOS 

do meu contacto em tempos idos com a gauchada dos 
pagos em que nasci, e incitada pela nostalgia que não 
me deixa, quando não estou nelles. São saudades de 
uma edade morta e de logares perlustrados, saudades 
que semeei na infância e que florescem ainda, graças 
á humidade das minhas primeiras lagrimas. 

E' nesses tempos e nesses logares que enxergo ainda 
os encantos mais lindos, a m.ais sublime poesia da vida. 

E quem, sendo gaúcho, e mais do que isso, campeiro, 
como fui, não sentiu trescalar de cada canto do Rio 
Grande, da sua terra, do seu céu, e até da vida dos seus 
animaes, uma attracção indizivel, que é a sua poesia 
inherente? 

Sirvam estes versos de noticia delia aos verdadeiros 
poetas, áquelles que a ignoram, mas que são capazes 
de cantal-a si buscarem os seus effluvios, por isso que 
são poetas, alliam á faculdade de sentir a destreza no 
dizer. 



Outro fim é render homenagem, pela concurrencia 
do esforço aos que, da minha gleba, se empenham em 
perpetuar o que vive na alma dos campeiros e que ia 
morrendo com elles. 

Afinal era tem.po de salvar do apagamento un acervo 
de encantos que foi o motivo de vida de muitas gera- 
ções, — os elementos diversos do ser gaúcho que, si 
não é uma epopéa no que tem de luctas titânicas con- 
trp, os inimigos da Pátria commum, para que o Norte 



" GAUCHADAS E GAUCRISMOS 5 

pudesse vencer a terra insubrnissa dos sertões e o 
resto dos brasileiros pudesse definir e dominar a im- 
mensidade do Brasil, para que, emfim, o Brasil pu- 
desse chegar a ser o que é, si não é uma epopéa nisso, 
é, ao menos, alguma cousa que merece a posteridade. 

Mas essa obra não pode ser trabalhada sinão com os 
instrumentos que nos deixaram os antepassados, as 
peculiaridades da sua linguagem, as expressões que 
lhes nasceram da alma, porque só ellas podem dizer o 
que é delia, o que sea delia, e o que vae a ella. 

E em valer-se delles está a originalidade das "Rui- 
nas-Vivas'" e da "Tapera", que são os phanaes Jcssa 
cruzada em formação no Rio Grande do Sul — o culto 
do Rio Grande pelas artes, sobretudo pelas letras, o 
gauchismo, convergindo no varnaculismo. 

Digo que está em formação no Rio Grande do Sul, 
para gryphar o contraste entre a sua literatura e as do 
lado de lá do Aceguá e do Uruguai. 

Tanto na Republica Oriental, pátria de Elias Regu- 
les, o sublime inspirado das cochilhas, como na Ar- 
gentina, o gauchismo é já uma literatura. 

Aí, porém, não exigiu esforços costa a cima, porque 
na vida gaúcha se resume a vida nacional dessas Re- 
publicas; enquanto que o Rio Grande, sendo uma in- 
significância no todo brasileiro, deve soffrer o peso 
delle, e acceitar o consequente retardamento dos seus 
surtos de originalidade em favor das instituições com- 
muns e da identidade do destino histórico, que temos 
tido e devemos ter sempre, por instincto de conser- 
vação, em reconhescim.ento ao passado, e por amor á 
grande Pátria, 



o GAUCHADAS E GAUCHISMOS 

As forças emancipadoras locaes cederam o passo á 
unidade nacional ; e com isto ganhamos enormemente. 
Não temos uma literatura, mas temos a Pátria Bra- 
sileira. 

Alcides Maya, o corypheu dos gauchistas, surge 
definindo o guasca somente meio século depois de 
definido o matuto, o sertanejo, que tem sido o typo 
do povo brasileiro, porque é o resumo da maioria delle. 

E' justo que nós, em minoria, viéssemos depois. 

Assim, não pudemos confirmar a nossa entidade, 
por mais essa feição característica, sinão ha poucos 
annos. 

E bemdicta seja ella que, definindo-nos, não é de 
molde a nos expor á desconfiança dos nossos irm.ãos 
federados, e muito menos á sua malquerença, como, en 
geral, são as manifestações politicas em destom no 
concerto nacional ! 

Ao contrario, ha-de contribuir para a formação de 
futura lingua brasileira, architectada e construída com 
material brasileiro, federativamente, si quizer o leitor, 
á qual já deram feições próprias, linhas e contornes 
estheticos, a altiloqúencia de Ruy Barbosa e o scien- 
ticismo literário de Euclydes da Cunha. 

Certo — O Brasil pelo Brasil porá o Mundo — é 
um ideal de acendrado patriotismo, não só na Politica, 
na Sciencia, e na Economia, como na Literatura. Pois 
bem, no Rio Grande do Sul ha também um ideal que 
não desdoura a quem o visa, um ideal de brasileirismo 
riograndense: — O Rio Grande pelo Rio Grande para 
o Brasil — . 

Tão digno quanto o outro, é apenas menor; por isto 
animo-me a fazel-o meu. 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 



i -Jt- 



Eis como vejo as cousas literárias do Brasil, e o 
logar do Rio Grande entre ellas. 

E, como penso que a porta está aberta, e traçado o 
caminho para o gaiichismo, a que assiste o direito a 
um logar ao lado do sertanismo, tão diffundido já, 
e tão influente na direcção da philologia brasileira, 
valido do meu passado gaúcho e do amor aos meus 
pagos, animei-me a sair por ella e a marchar por elle, 
nas pegadas daquelles que a abriram e o traçaram. 

Os gaúchos dos meus pagos que digam se lhes falei 
á alma; e os vaqueanos da cruzada em que me alisto 
se apprendi o atalho que ensinam neste rincão das 
letras pátrias. 

Si me perdi, farei, como bom campeiro, a única 
cousa que ensina a vaquia de quem sabe viajar de 
noite e perde a estrella: — acampar onde estiver, á 
espera do sol, do dia, da luz. 

Piá do Sul. 



PREFACIO DA 2.* EDICAO 



O bom acolhimento da primeira edição deste livro 
deu-me asas para tentar a sorte da segunda e estímulo 
para corresponder mais exactamente áquelles que ap- 
prehenderam os meus intuitos e com agradável bene- 
volência se manifestaram pela imprensa ou por epis- 
tolas que guardo como louros. 

Repito que não é a poesia mesma da minha poética 
Província natal o que exhibi na primeira publicação 
e accresce nesta; mas a muito ingénua e bem inten- 
cionada indicação das castalias rio-grandenses de que 
ella verte, as mais das vezes crystallina, impolluta e 
fresca, como a lympha dos nossos olhos d'agua e 
cacimbas, escancarados entre pedras, á sombra de vi- 
mes e camboatás, sob a fragrância dos espinilhos, com 
a virgindade primitiva que o recesso guarda e defende, 
e apenas o terno bico da saracura viola e desfructa. 

Desta vez, porem, fiz o empenho de supprir as defi- 
ciências do texto com a plástica incomparável dos 
pennejados do illustrador. As illustrações do senhor 
Carlos Castells, que, pela luz projectada sobre os me- 
lhores passos do livro, são verdadeiras illuminuras 
notáveis desde já pela expressão, movimentação, e rea- 
lidade em flagrante surprenhendida e apanhada por 
quem a bebeu no primeiro leite e perlustrou muitos 



]{) GAUCHADAS F, GAUCHISMOS 

rincões gaúchos, guardando n'alma todas as minúcias 
campeiras, estas illustrações farão entender melhor o 
sentido que os versos não conseguem sinão suben- 
tender nas vaguezas da imaginação. O leitor, atten- 
tando sobre ellas, verá que não ha exaggero na voga 
deste desenhista oriental en ambos os países do Prata. 
Neste momento não ha quem se lhe avantage nesta 
especialidade dos dominios artísticos cispiatinos e 
transplatinos. Mui longe correm já as suas interpre- 
tações gaúchescas, como as de especialita único no 
género, e, talvez, nunca e jamais ultrapassadas por 
nehum outro, decandentes como estão os costumes tra- 
dicionaes, sob a vaga da evolução dos hábitos em ge- 
ral e da indumentária particularmente, que aos guas- 
cas emprestava todo o pictoresco local, dando-lhes á 
alma reflexos da imponência e da galhardia do pane- 
jamento antigo. E, si os guascas authenticos vão se 
sumindo na memoria, ou existem, só nas reminiscências 
da infância de quem hoje anda pela media edade, como 
o próprio Sr. Casteils quem ainda chegou a ver 
muitos e foi um dos tantos, mais difficil será gerar 
intérpretes desse meio já transformado, que operem 
"ex natura", originalmente, e não copiem o que por 
outrem já fora feito. 

Com o tempo o Sr. Casteils será um dos mais 
visados alvos de retrospecção e referencia. 

E' fácil de comprehender que o meu livro ganhe 
com a collaboração deste illustre artista do lápis e 
das linhas fugazes, e mais do que o livro, os curiosos 
e amadores das cousas gaúchas que são também as do 
Rio Grande do Sul, e, por que não? as do próprio 



GAUCHADAS E GAUCIIISMOS H 

Brasil de que esta Província é um dos pedaços mais 
necessários e dos membros mais influentes. 

Aos brasileiros em geral e aos rio-grandenses em 
particular apresento pois, o Sr. Carlos Castells quem, 
collaborando commigo nesta fronteira, onde se soldam 
as terras, se fundem os homens e se mesclam os idiomas 
do Brasil e do Uruguay, revela a intenção de corrobo- 
rar a humanitária obra de americanismo intellectual, 
ora em pleno surto inicial. 

Tão bem amparado, não me restam duvidas nem 
apprehensôes quanto á sorte desta edição dos meus 
bisonhos versos 



A ultima revolução rio-grandense, em cujas fileiras 
militei o tempo bastante para reviver commoçoes da 
adolescência, deu-me aso de augmentar o numero de 
paginas com varias contribuições inspiradas in loco, 
escriptas sobre a carona, no abrigo dos capões, dos 
barrancos, das covas de touro, quando não á luz dos 
fogões, sob o tecto infinito do firmamento, ou no 
lombo embalante do cavallo ao tranco. A maior parte 
delias vão sob o titulo "Chimangadas", inspirado na 
finalidade do nosso movimento contra António Chi- 
msngo, e como preito á memoria do grande poeta 
Amaro Juvenal, cuja viola soará melodiosamente en 
quanto os rio-grandenses forem gaúchos. Para o 
mesmo capitulo passei o poema intitulado "Mal Com- 
parando", a que dei maior amplitude de acordo com 



12 GAUCHADAS E CAUCHISMOS 

O desdobramento dos successos históricos do Rio 
Grande, que continua a ser o indomável aporreado 
Zaino Malacara. Faltava mencionar as campanhas 
democrática e a recente libertadora, cujos corypheus 
com suas personalidades, como os passados chefes rio- 
grandenses, conseguiram empolgar o Estado e sentar- 
se sobre o Zaino. 



É possivel que algum leitor tope com exquisitas 
graphias de certas palavras. Quando não torem erros 
de impressão, o que á intelligencia e boa vontade do 
leitor logo se evidenciará, são orthographias pessoaes, 
em consequência da liberdade em que está quem es- 
creve português, por falta de ordem e regras no as- 
sumpto e por me repugnar a phónica, orthographias 
que fui buscar nas fontes da lingua com a etymologia 
por base, a bem de ter amparo solido e segura orien- 
tação, acima das inspirações arbitrarias de uns e das 
pretensões injustificáveis de outros. Dessas investi- 
gações e regras, para mim colligidas, consegui encher 
muitas paginas que em breve darei á luz. 

Piá do Sul. 

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VISÕES DO CAMPO 




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XV 



Nenhum som se compara ao da lingua materna 
ouvida em terra alheia entre gente extrangeira. 
A pátria nos possue como uma onda eterna. 
Todo outro am.or hum.ano é tenção passageira. 

Mas o som que prefiro, o som que niais me agrada, 
é nos pagos do sul o grito do pampeiro, 
e o choro do violão nas noites de invernada, 
ao lume do fogão, no rancho do tropeiro. 

XXII 

No mais fundo de mim dorme uma melodia, 
cadencia languorosa e toada plangente. 
No rancho de um tropeiro ouvi cantal-a um dia, 
quando tornei a ver meu pago e minha gente. 

Os cavallos á sega erravam na espessura, 
a agua do chimarrão fervia na chaleira. 
Meu coração contente aspirava a doçura, 
a bondade e o calor da pátria hospitaleira. 

Alberto Ramos ("Elegias e Epigrammas"). 















^ 



O GAÚCHO 



A marca que o homem traz, o cunho mais honroso, 
E' n'aima a imagem ter do seu país glorioso. 
Os riscos que a floresta emmaranhada encobre 
Dão perspicácia e tino ao sertanejo pobre. 

E' pio o montanhês, porque o monte alteroso 
Lhe está m.onstrando sempre o Todo Poderoso. 
O gaúcho do lhano é sobranceiro, e nobre. 
Dono da vastidão que o seu olhar descobre, 

Tem por prazer andar, vencer léguas por louros; 

Sempre foi domador de potros e de touros; 

E até nem pensa que haja entes que não se domem! 

Como não pensará dominar também o homem, 

Si, ao surgir, a cavallo, em cima da cocliilha. 

A própria terra o faz senhor porque se humilha? 




o RETIRANTE 



A gaita matou a viola. 

O pho&ph'ro matou o isqueiro, 

A bombacha o chiripá, 

O lavrador o campeiro. 



J. Crsiniltr:! Jaeques. 



Lá surge, na cochilha, o porte adulto 

Do garboso gaúcho, a trote largo; 

Nas canhadas se esconde, sem embargo 

As lombas vão-lhe, ao longe, erguendo o vulto. 



Olhando os campos de hoje, o pampa culto, 
Retalhos vê do lavrador ao cargo. 
Já não lhe chega. . . E um pesar amargo 
Infunde~lhe o progresso qual insulto. 



GAUCHADAS t OAÚCHISMOS 19 

Aonde vae esse amargurado guasca, 
Surdo, alheio aos gemidos do Icmbilho 
E ás queixas do bagoal que a espora rasca? 

Vae desertando os pagos de onde é filho, 
Em busca de outros onde ha campo aberto, 
Onde não haja gringos. . . mais deserto. 



— >^^ 



20 GAUCHADAS E GAÚCHISMOS 



MEUS PAGOS 



Existe uma cidade encantadora 
Na concha da canhada reclinada, 
Esquiva do Pampeiro, aconchegada 
Contra a beira do Cerro protectora. 

Mirando o Norte, pelo sol coroada 
"Rainha da Campanha", seductora 
Impera, sendo tímida pastora 
No meio dos rodeios acanhada. 

E' mãe de illustres filhos, mãe de herces, 
Tem um diadema verde de cochilhas, 
E um manto real de occasos e arreboes. 

E' o povo que ao gaúcho acena, e ri 
Na graça e na belleza de suas filhas, 
— E' Eagé, a cidade em que nasci. 




A DILIGENCIA 

Envolto em poeira surge a rumo da parada 
O carro medieval. Sobre o rodado forte 
Matraca, e ginga, e calca, imponente no porte, 
A carruagem veloz que marcha á disparada. 

Cuidoso o maioral vae-lhe guardando a sorte 
No íenteio da rédea, a guasquear a potrada; 
E o quarteador vaqueano, ajeitando-a na estrada, 
Gambeteia, persegue as léguas, dá-lhe o norte. 

Passageiros, jornaes e cartas têm ingresso 
Onde ella se introduz, tal qutii locomotiva, 
Deixando no seu rastro a nista do progresso. 



E, nos ermos rincões recônditos do pampa, 
A diligencia deixa, á feição prim.itiva, 
A civilização que leva em tosca estampa. 




A COMITIVA 



A comitiva de gaúchos passa, 
De soturna apparencia e sobranceira, 
Levantando, na estrada, polvadeira, 
Como tições em nuvens de fumaça. 

Por quebrar o mormaço da soalheira 
E a dor da nostalgia que os trespassa, 
De quando em quando um trago de cachaça. 
São de outros pagos, gente forasteira. 

Trazem n'alma o silencio do deserto, 
E chegar de uma vez levam por fito. 
Agora vão cortando campo aberto. 



Cavalhada por deante, a trotezito, 
Pelo rumo do atalho, que é mais perto, 
Vl, a=sim desapparecem no infinito. 




A CHINOCA 



Qando ella passa airosa, mas modesta, 
Com seu ar de donzella confessado 
Pela expresão do olhar no chão cravado, 
Pelo rubor das faces e da testa. 

Rubor que lhe pintou em cada lado 
Com seus beijos de luz o sol da sesta, 
Descobre-se-lhe n' alma o tom de festa 
De quem não pensa o mal e ao bem é dado. 

Quem dirá, vendo- a timida, a Chinoca, 
Essa pudica filha do campeiro. 
Arisca no seu rancho, na sua toca, 



Que ella aguenta o rigor dos nossos soes. 
Que não treme aos insultos do Pampeiro, 
E que se faz um dia mãe de heroes! 



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A TAPERA ( í ) 



Entre los pastos tirada. 
Como una prenda perdida, 
En el silencio escondida, 
Como caricia robada. 



Elias ReguIcM. 



Esparsas na quebrada as ruínas da tapera, 
Sob a sombra do ombú, sob o pasto macio, 
Jazem, como carcassa amortalhada de hera, 
Bem mesm.o no loffar onde o rancho existiu. 



São vestígios de alguém que d'allí se sumiu 
Legando áquelle pago o nome que hoje impera, 
Áquella solidão mais um logar vazio, 
"^^ ao campo a cicatriz dos vallos que fizera. 



GAUCHADAS E CAÚCniS?.10S 25 

Ao mormaço do scl, quando o veato socega, 
Na prega da canhada, occulta em soledades, 
Sob as nuvens — docel que o céu em cima pega- 

Paternalmente o pampa acalenta as saudades 
Que o coração encontra em ninhos de m.acega, 
E o Dassado enititou nesse berço ás edades. 



(I) Tapera onde nasceu Gaspar SilTreira Martins, sita algunas qttaáras alim 
da linha divisória com a Rep. do Uruguay. 




o VETERANO 



Contra a luz do fogão que alumia a ramada 
Com lampejos de fogo, ephemeros, ligeiros, 
Enquanto o gallo canta e cantam os tropeiros, 
Ante as barras do dia, ao clarão da alvorada, 

O Índio velho repassa os seus casos guerreiros, 
Que já brotam sem côr da memoria cansada, 
Como os mates que toma em herva galopeada. 
Não se recorda bem. . . Mas. . . em Monte-Caceiros, 

E em Paysandú, ficou extendido no chão. . 
Por guapo, em Tuiutí, promovido de posto. . . 

E, quando nasce o sol, farto de chimarrão 

O veterano surge ostentando uma escara, 

Larga como uma estrada entre as rugas do rosto, 

Onde a gloria acampou sublimando-lhe a cara. 




o TROVADOR DO PAMPA 



Habita a estrada real, o pago que lhe resta, 
Desde que é carreteiro e pelos ermos rola; 
A sombra da carreta, á sombra que consola 
Das reverberações do claro sol da sesta, 



Vive o dia acampado. Arisco ao ar de festa 
Do resplendor do céu, contra os rincões se isola, 
Todos passam, só elle em peludos se atola; 
Marcham todos de dia, elle á noite modesta. 



2b GAUCHADAS E GAUCHISMOS 

Assim, logo que alveja a lua pela geada, 

Que o campo inteiro cobre, e os bois quebram na p3,"a. 

Elle levanta o pouso entoando infinda toada. 

E sobre o frio alvor, como sobre um lenrol, 
O gado ruminando escuta a serenata 
Desse amigo da lua, inimigo do sol. 




PASSO A PASSO 



Rachina, chia, guincha o eií^:o da carreta 
No repecho da estrada, entre sangas e cardos; 
Geme em baixo da carga enorme de seus fardos, 
Enquanto cada roda escarva uma sargeta. 



A prego de guilhada, agudo como os dardos, 
E' que marcham os bois, e mostram a silhueta 
De fabulosa lesma, arrastando em gam.beta 
O caramujo immenso, a passos lerdos, tardos. 



30 GAÍrCIIADAfí E GAÍ-CHISMOS 

Toda a campanha vive á custa do seu ventre, 
Que também surte o povo á custa da campanha, 
Quer á cidade vá, quer pelo pampa entre. 

Por isso vão e vêm, povoando a estrada real. 
As carretas de bois, que o destino arrebanha, 
Com fructos do país, num vagar sem egual. 



-^m< 




os MESTRES DA PELEIA 



Na beira do rodeio o touro chucro berra 
Escarvando uma cova, escalavrando a terra. 
Ante esse desafio atrevido ao combate, 
Logo outro touro vem, ruge, escarva, e se bate. 

Retumba, echôa, e choque entre os touros em guerra; 
Cruzam-se as guampas, e um.a ^pós outra se enterra 
Entre os músculos de aço afeitos ao rebate. 
Uma, outra, outra, outra vez, até real desempate. 

Como recordação dessa briga de morte. 

Em que triumpha sempre aquelle que é mais forte, 

No chão trilhado fica o rasto da disputa, 



Nas quebradas reboando os encontros da lucta, 
E aos gaúchos d'alli, que a lembram volta e meia. 
Uraia viva licção dos mestres da peleia. 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 



O PAMPEIRO 



A nuvem sobe cheia de negror, 
Esconde o soi e deixa em sombra a terra. 
O vento chega, zune, ulula. . . horror! 
Pávido á própria fibra o ser se ateira. 

Vem varrendo a ccchilha, a várzea, a serra, 
Traz arvores pelo ar, tectos, fragor 
De carga, de tropel, de trem de guerra. 
Cs homens se recolhem de temor. 

Os caules desgrenhados com.o mastros. 
Vergam sob o chicote das rajadas, 
E a natureza roja-se de rastros. 

Prostram-se as chucras reses e as manadas, 
A vida se prosterna em desalentos, 
Quando passa o rei bárbaro dos ventos. 




o FOGO SAGRADO 



Ha dous séculos já que o fogão alumia 

O rancho de torrão, a casa do posteiro, 

O acampamento, o pouso, o galpão do estancieiro, 

Quer succedendo o sol, quer precedendo o dia. 



A' luz da labareda, ao calor do braseiro. 
Onde se assa o churrasco e a chaleira chia, 
Como deante do altar de onde a vida irradia, 
E' que o guasca com.munga em seu rito campeiro- 



3Í4 CAÒCHADAS E GAÚCHISMOS 

Pharol de noite acceso ao vaqueano sem rumo, 
O seu fogo sagrado incensa o céu azul, 
Quando acceso de dia, elevando o seu fumo. 

E as sombras que elle agita em macabro bailado, 
São as das gerações do P.io Grande do Sul 
Agachadas em torno, adorando o passado. 



— ->11^ 




o REI DO PAGO 



Eil-o em riba do basto, assim que o potro eiicilha, 
Esperando o corcovo, a rodada, o âmago. . . 
Agora, arrebatado a rumo incerto e vago. 
Correndo a espora vae da paleta á virilha. . . 



E' o domador gaúcho, o rei de todo o pago. 

Que tem por sceptro o relho e por throno a cochilha. 

Cujo nome se diz ante cada tropilha 

Que arrocinou, domou, á força ou com aiago. 



36 GAUCHADAS E CAÚCHISMOS 

Não lhe digam, porém, que é só cravar a espora, 
Guasquear e ginetear, e que isto é que é domar. 
Não; que o bom domador o seu bagoal adora; 

No primeiro galope é mau como inimigo, 
Depois, com terno jeito e suave manuncear. 
Do animal que era chucro elle faz seu amigo. 



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ARTE GAÚCHA 



Trançado em couro cru, para aguente e repuxo, 
O laço que aos tirões domina o touro alçado, 
E nos tentos amima o bagoal aperado, 
Tem qualquer cousa egual ao coração gaúcho: 

— Nos pealos de cucharra e pealos de boleado, 
Em que acertar é gozo e derrubar é luxo. 
Como bala que sae zunindo do cartucho, 
Leva o prazer da força, aos golpes revelado. 

E, quando vae pelo ar fazendo uma espiral. 

Que aos poucos se desfaz, e se espicha e se alinha 

Da argola da cedeira ás guampas do animal, 



Manifestação de arte, esse tiro de laço 
Desenha mais um traço, uma rasgada linha 
Da grande alma gaúcha esboçada no espaço, 




o TROPEIRO 



Costuma conduzir á morte gado alheio, 
Cantando pela estrada um estilo dolente, 
Ao compasso que dão as guampas, lentamente, 
E as patas da boiada, ao passo, em pastoreio. 



No tranco do matungo elle vence paciente 
A distancia que vem. da xarqueada ao rodeio, 
E vence a chuva, o somno, o sol, o passo cheio ; 
E' superior ao tempo. . . a tudo indifferente. 



GAUCHADAS E GAÚCHISMOS 39 

Parece a incarnação maldicta do destino 
Rumbeando, da culatra, a querencia da morte, 
Enquanto canta em tons monótonos de sino ! 

Mas, quando o gado é seu de marca e de signal, 
Tem ganas de voltar, e de camibiar de sorte. 
Nem a m.atatiça vé, porque lhe senta mal ! 



— Kl-^ — 







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O MEU EMBLEMA 



Dous forneiros casados, no salgueiro, 
Fazem seu ninho de argamassa dura ; 
Aquelle aperta o barro, este o procura, 
E vão e vêm no afan do dia inteiro. 



Quando se avistam, qual mais prazenteiro, 
Batem asas e cantam de ternura, 
Retribuindo-se trinos de ventura, 
Por melhor festejar o companheiro. 



GAUCHADAS E C.AUCHISMOS 41 

Eu sou como o forneiro desse ninho: 
Arranchado no passo do Carancho, 
Sob a figueira, á beira do caminho, 

Trabalho aí cantado amor, mui ancho, 

E, commigo, uma china de carinho. 

Sou como o joão-de-barro no meu rancho. 



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AMOR E ADORAÇÃO 



Amo-te assim, meu flete, aperado de prata, 
Como outr'cra o corcel de um cavalleiro rei, 
Porque me dás um que de altivo aristocrata, 
Senhor da liberdade, escravo só da lei. 



Amo-te, sim, porque no teu andar gozei 
Das delicias do p2go, onde a existência é grata: 
— A solidão do pampa, os rincões que habitei, 
A vastidão sem firn que o teu olhar retrata. 



GAUCHADAS K GAUCHISMOS 43 

Adoro-te, porque és um symbolo áe glorias, 
Porque o teu rastro vem dos campos das victorias 
Aonde levaste os meus no teu lombo seguro. 

Adoro-te, porque serás o pedestal 

Do vulto de gaúcho erguido como ideal 

Ante a imaginação dos homens do futuro! 



— HS-5— 







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E' MYSTERIO! 



Ao pôr do sol, no fim dos dias calmos, quando 
A sombra cresce e vae cobrindo a natureza, 
Quando os pássaros vão buscando o pouso em bando, 
E sobre o campo cae o manto da tristeza, 



Uma ponta de gado alli da redondeza 

Ao sangue da carneada acerca-se berrando, 

E se prostra em redor, na atitude da reza, 

E chora num berrar que ao longe vae echoando. 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 45 

Senhor, que quer dizer esse coro funéreo? 
E' dor, é religião, saudade, culto, amor? 
Até hoje ninguém revelou. . . E' mysterio ! 

Caso é que sempre allí, nos instantes de occaso, 

Vem o gado berrar, com accentos de dor, 

Sobre os restos da rês que m.orreu. . . Este e o caso! 



— >gr< — - 







O OMBU 



Avore amiga, tens u>ti que de extraordinário. 
Não ha quem te contenaple o vulto solitário 
Sem que lhe aflore n'atma intérmina tristeza. 

Waldomiro F. Ferreira. 



N'uma cochilha avultando 
Vive certo ombú frondoso, 
Ha cem annos convidando 
Os viajantes ao repouso. 



O ombú nasceu na amplidão, 
Fez-se filho do deserto, 
Esposando a solidão 
Chamou a vida p'ra perto. 



GAUCHADAS E GAÚCHISMOS 47 

O ombú fala de tristeza; 
Mas sem a copa sombria 
Com que brinda á redondeza. 
Não ha no campo alegria. 

Não ha raio sem clarão, 
Carniça sem urubií, 
Saudade sem coração 
Nem tapera sem ombú. 

Com seus galhos, como braços, 
O ombú dá sombra á cochilha. 
Com as raizes abraços. 
Como si fosse sua filha. 

— O ombú não presta p'ra nada — 
Diz um antigo rifão. 
E a som.bra tão apreciada 
Que até o rancho as folhas dão? 

Quando o gaúcho que o planta 
Morre, se muda, ou se some, 
O ombú fica, arvore santa, 
Muitas vezes com seu nome. 

Não o faça abandonado 
Um ombú que está sozinho, 
Pois nos seus galhos pousado 
Nunca falta um passarinho. 



48 GAUCHADAS E GAUCHISMOS 

Cheios de rugas e nós, 
Cheios os galhos de ninhos, 
Os ombús lembram avós 
Abraçando os seus netinhos. 



— >4l-í-- 



GAUCHADAS E GAUCRISMOS 



49 



O PALLA 



Trajando o p?.l!a o guasca se reveste 

Da imponência de um rei ; 

É quando o palia veste 

Que parece o monarcha das cochilhas 

A repontar touradas e tropilhas. 

Tem que pensar que é grande um domador. 

E esse incásico trapo que inda resta 

O faz á terra, ao homem superior. 











50 GAUCHADAS E GAÚCHISMOS 

Em repouso, arrolhado sobre os hombros 

Robustos do campeiro, 

As pregas verticaes que tem o palia 

Da golla ás franjas 

Caídas á vontade, 

Corno as folhas da copa do salgueiro, 

Lhe emprestam linhas á postura, 

Dão-lhe a serenidade 

Que a Palas, deus da pas. 

Os gregos deram na esculptura. 

Chega o verão? elle é consolo 
Para o mormaço da soalheira, 
E refrigera o corpo do criôlo 
Destes pagos de sol ardente, 
No curso das troteadas. 
Por entre a polvadeira 
Das infindas estradas. 

O hinverno vem? o palia é agasalho, 

Forro do poncho de panno, 

Dá calor de fogão 

N'uma noite de geada 

Ao relento passada; 

Vale um trago de canna, 

Porque quebra o ferrão 

Agudo e frio da lichiguana. 

Quantas vezes sob o palia 
Que lhe cobre a cabeça, 



Gauchadas e oaúciiismos 51 

Dorme e sonha o gaúcho, 

Sonhos que nada eguala: 

— Ouro ganho no truco 

Com flor de trumpho, 

Desafios e alli nomais retruco, 

Victorias, cargas, lanças, sangue, bala, 

E am.ores saboreados 

Ao calor desse pallio de triumpho. 

Avulta de mais longe o guasca. 

Si de palia apparece, 

E parece mais forte, 

Quando célere investe. 

Por espalhafatoso, 

O seu másculo porte. 

Sempre que o vê surgir, 

O horizonte recua pávido, 

Deante do vulto intrépido e veloz 

Do campeiro audacioso. 

Como a fugir 

De temerário algoz. 

De quem forçando a linha extrem.a vem, 

Consumindo a distancia. 

As léguas todas que ha por toda a estancia. 

Descortinando, revelando o além. 

O palia é uma bandeira de victoria 
No próprio corpo hasteada. 
Que de combates fala, 
Com acenos á gloria, 



52 GaC-CHADAS t GAVCIIISMOS 

Ufanamente desfraldada 

Aos ventos da campanha, 

Que o pampeiro sacode e a brisa embala. 

Delia vestido, 

Para a vida ou a morte, 

O guasca vae por toda parte, 

Ao tranco, ao trote, em carga, 

Nos dias de ventura ou de má sorte, 

Sempre envolvido 

Nas pregas do estandarte. 

Ora fustiga a frente e estala 

Nas orelhas do flete, como látego; 

É que o Minuano agita o palia 

Incitando a marchar, 

Ir para deante, 

O centauro que estaca na cochilha 

Fitando algo 'distante. 

Quem nasceu para ser campeiro 

Não lhe é dado parar. 

Tal como indante cavalleiro. 

Ora o vento se em.bolsa, 

E o manto gaúchesco é vela 

Que impelle a continuar, 

Ao sopro das rajadas da procella. 

E o gaúcho lá vae de palia ao vento, 

Sumido nas canhadas um momento, 

Para surdir nas lombas, nas cochilhas, 

Ondas de irado mar 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 



53 



Que se immobiliazaram 

Com o guasca no lombo a ginetear, 

Em busca de qiierencias, de manadas, 

De gado, de tropilhas. 

Ora o palia se extende 

Em braçadas no espaço, 

Em pontas que desprende 

Buscando mais velocidade; 

São as asas do pégaso que vôa, 

Mergulha na profunda immensidade. 




Ora o Pampeiro arroja para os lados 
Linguas que lambem o ar, 
E do gaúcho envolvem a pessoa, 
Em diabólico jogo; 



54 CALCHADAS E GAÚCHISMUS 

São as franjas do palia 

Que se agitam á tôa, 

Labaredas do incêndio da carreira, 

Como si a alma gaúcha fosse fogo 

Que andasse a chamejar, 

Ou fosse o flete errante pyra, 

Fantástica fogueira 

Que a vertigem accende, 

E o vulto do campeiro invade, 

Fogueira em que se atira 

Elle mesmo votado 

Em holocausto á liberdade. 

Quando, porém, o leva solto, 

E dos hombros as franjas vão pendentes, 

Cuidado o palia, então; 

Em torno da cintura faz a noite. 

Para que o ferro do facão se acoute. 

Então, na tempestade da peleia. 

Como á luz de uma estrella o brilho d'agua. 

Como faisca de fogão na treva. 

Como a presa da escura fauce 

De uma fera, tal qual corisco, 

O ferro do facão relampagueia 

Cada vez que o gaúcho pega um prisco; 

E o palia em cima do hombro se amontoa. 

Qual nuvem de tormenta 

Rasgada pelo raio, 

Quando o trovão reboa. 




A FIGUEIRA DO MATTO 



Na sesmaria em que vivo 
Uma figueira do miatto 
Aconchega e agasalha 
O meu rancho de posteiro 
De torrão, forro de palha. 
Não ha mãe mais extremosa, 
Que proteja mais o filho ; 
Abre o manto de folhagem 
Pelos lados do sol forte, 
E o defende carinhosa 
Contra os calores do Norte; 
Cobre-o de sombra co'a copa 
E co'os galhos dá-lhe abraços, 
Mesmo contra o coração. 



56 GAUCHADAS E GALCHISMOS 

E como si a natureza 
Vestisse o meu tosco rancho 
De um palia feito de folhas, 
Na ardentia do verão. 
Tem os braços desmedidos 
Em busca do que abraçar 
E do que pede frescura, 
Para os lados extendidos, 
Por baixo, bem ao alcance 
De qualquer mão caridosa. 
São canchas da travessura 
Da gurizada do rancho, 
E as travessas onde engancho 
As pontas da manha rede, 
Onde sesteio amacado 
Nas horas de sol e sede. 
Desde o nascer da alvorada 
EUa começa a falar 
Na voz alegre das aves 
Que cantam a luz do dia, 
E me fazem despertar 
Trocando um sonho per outro, 
O sonho da fantasia 
Pelo da felicidade 
Que é viver por estes pagos 
Em baixo desta figueira. 
Viveiro de passarinhos, 
Sem grades e sem limites. 
Sempre povoada de ninhos 
Que se embalam nos teus ramos, 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 

Cheia de licções de amor 
E de alegrias da vida, 
Assim te vê teu cantor, 
Durante as horas de sol. 
Minha figueira querida. 
E, quando a noite escurece, 
Antes da lua sair, 
A figueira até parece 
Mais escura do que a noite; 
E só deixa as aberturas. 
Rasgando oihaes na folhagem, 
PTa que passem as estrelias 

Accesas lá nas alturas, 

E de cá possamos vêl-as. 

A minha figueira boa 

Reúne em baixo de si 

Uf-ia criação inteira, 

Uma criação escrava, 

Da doçura da fructinha 

Que produz minha figueira, 

E cae de cima dos ramos, 

Como do céu o m.aná, 

P'ra cibo das avesinhas 

P'ra sustento do cardial. 

Do cardial da melodia 

Encantadora dos ares. 

Que faz sentir que a ventura 

Está na melancholia 

Das horas crepusculares. 

Figueira da minha vida, 



57 



58 GAUCHADAS E CAUCHISMOS 

Berço da minha família, 
Nestes pagos todos sabem 
Que és a madrinha da estancia 
Baptizada com teu nome, 
Que esta redondeza inteira, 
E que meu rancho tam.bem, 
Mais esta verde cochilha, 
De onde se enxerga a distancia, 
Têm o nome de Figueira. 



CHIMAxNGADAS 



GAUCHADAS K GAVCHISMOS 61 



MAL COMPARANDO . . X ^ 
(Poema kistórico gaiichesco ) 



Esse matungo Zaino Malacara, 
Outr'ora bom de pata, ganhador 
De changa nas carreiras, corredor 
Como avestruz acuado que dispara, 
Esse pingo velhaco que volteara, 
Em tempo de bagoal, o domador, 

II 

Nasceu para viver no descampado, 
Sem mattos, sem arames e sem montes 
Que cortem a amplidão dos horizontes; 
Onde o céu roça a terra nam.orado. 
Pela distancia unido, remirado 
No olhc-d'agu3, nas sangas e nas fontes; 

III 

Onde é a própria terra um céu aberto, 
Uma cancha alinhada aos quatro ventos 
Para a penca veloz dos movimentos; 
Onde se enxerga o fim das léguas perto. 
Como a linda miragem, no deserto 
Que ao viajor dá mais força, mais alentos. 

; í ; V. as i-itcrpretaçõís deste poema ir.ctaphcrlco á pag. 18. 



62 GAUCHADAS E GAÚCHISMOS 

IV 

Numa querencia dessas foi parido, 
E cresceu retoiçando na cochilha, 
Alvorotando o gado e a tropilha. 
Na hinvernada vizinha era rnettido, 
Mas sempre do seu dono protegido, 
Como o filho mais novo da familia. 

V 

A Tropilha era grande, pois contava, 
Além da Egua-Madrinha e do Potranco. 
Dezenove matungos, cujo tranco 
Em retoiço e tropel se transformava 
Ante a sanha do Potro que ponteava, 
Levando tudo a tranco e a barranco. 

VI 

Era a cousa mais linda que se via, 
Quando elle atropelava a immensidade 
De cola no ar, sem rédeas, á vontade; 
E, presas no pescoço que se erguia. 
As crinas balanceando á ventania, 
Assim como o pendão da liberdade! 

VII 

Neste andar foi-se o tem-po de mamão; 
E o bruto chegou mesmo a ter colmilho, 
E uma cara maleva de zorrilho. 
Chamando o capataz o dono, então. 



GAUCHADAS E GAÍTCHISMOS 63 

Lhe disse em tom de quem é bom patrão: 
'« O Zaino já está bom para o lombilho; 

VIII 

" E, depois de encilhar, esse cuerudo, 

" E' preciso mettel-o na culhera, 

" Que contra egua-madrinha não ha cuera, 

" Matreiro ou peseoceiro macanudo, 

" Que não apprenda a cabrestear, taludo, 

" Que não se amanse numa primavera." 

IX 

Arrebanharam logo os animaes, 

E metteram o laço de surpresa 

No pescoço do m.acho, que se entesa, 

Mancteia, dá guinchos, como os ais! 

Dos que perdem os tempos sem eguaes 

Da liberdade, o dom da natureza! 



Pescoceou, se boleou, andou de arrastro. 
E o domador dizia só por farra: 
" — Garanto que com dous tirões esbarra " 
Mas foi só o tempo de sentar no basto; 
Plantou figueira alli nomais, no pasto; 
E o Potro se alçou logo a vender garra. 

XI 

Correu até não mais sentir presilha. 
E, quando se parou, pôs-se a bufar, 



64 GAUCHADAS E GAÚCHISMOS 

Como se proclamasse á terra, ao ar: 
" — Não me quizeram chucro na tropilha, 
" — Hão-de m*e ver solito na cochilha!" 
E começou, arisco, a matrerear. 

XII 

Começou nesse dia uma potreada 

Com perfeito rigor da arte campeira, 

Que a campanha trilhou, deixou como eira. 

Mas nem a laço e bola e cachorrada 

O Malacara vinha na volteada, 

O Zaino não entrava na mangueira. 

XIII 

A farra durou mais, porque assomou, 
Com grande estardalhaço, na cochilha, 
Mangueando o Zaino longe da Tropilha, 
Um sujeito malevo, que jurou 
Sentar-lhe a própria marca; e o marcou. 
Sabem quem foi? — Pois foi o Farroupilha! 

XIV 

Quem não gosta do bom desperdiçado 
Por quemi não sabe aproveitar seu bem? 
Quanto mais um vsqueano de vae-e-vem 
Que muito conhescia o extraviado, 
Sabendo que daria, bem. dom.ado, 
Um pingo como não possue ninguém! 



GAUCHADAS t GAÚCHISMOS 65 

XV 

Matrereou esse taura, fez milagres 
Para romper a manga da peonada; 
Mas de nada serviu a sua arriscada. 
Ilhado andou, passou momentos agres, 
Fez proezas dentro d'agua, como os bagres. 
Campereou muito; mas não houve nada. 

XVI 

Como era exaggerada a pretensão, 

A batida seguiu com desespero; 

A indiada já não tinha nem apêro; 

E, mesmo assim, não lhe afrouxava a mão, 

Para arrancar o Zaino ao tal mandão 

Que o tinha de a cabresto com esmero. 

XVII 

Até que foi chamado um camperaço 
Mais tarde nesse pago conhescido 
Pelo nome de Duque, homem sabido 
En domas sem montar nem metter laço; 
Pois já tinha agarrado, passo a passo, 
Muito bagoal matreiro e presumido, 

XVIII 

— Homem de tino, experto e de constância, 
Este campeiro tinha por preceito: 
— Em vez de usar de força usar de jeito. 
Levou tempo saindo só da estancia. 



66 GAUCHADAS E GAUCHI3M0S 

E, ao alçado mostrando-se á distancia, 
De vêrêda foi delle amigo feito. 

XIX 

Um dia repontou a Egua-Madrinha 
Para que lhe servisse de sinuelo. 
De golpe conhesceram-se no pêlo ; 
Quando a mãe relinchava o filho vinha; 
Deste modo ajuntaram-se sem rinha, 
Sem barulho, esparramo e atropelo. 

XX 

— Não ha nenhum matreiro que não caia 
Diz um velho rifão do povo inculto. 
Sim, agarram-se a bola, como insulto, 
Os maulas que são miaulas já de laia, 

E se deixam prender dentro de raia. 
Mas aquelles de altivo e nobre vulto, 

XXI 

Para um desses cair, é nessessario 
Muita for^.a, ou bolear seu coração, 
Com jeito, com ardil, moderação. . . 

— Sem.pre foi preferível ser corsário 
A escravo ser. Mil vezes solitário 
Que á força entropilhado no rincão. 

XXII 

De certo, a liberdade é mui valiosa; 
Mas vale mais o tento da harmonia 



GAUCHADAS E GAllCHISMOS 67 

Que a todos cose em forte companhia. 
O coração no laço é como goza, 
E' como sente a vida cariciosa; 
A escravidão por gosto delicia. 

XXIII 

Pouco tempo depois ia por deante, 
Bufando e farejando o ar da querencia, 
Como quem sopra a dor que a longa ausência 
Põe dentro d'alma em um país distante ; 
Com.o quem tem no coração constante 
Altivez, mas amor de preferencia. 

XXIV 

Nem fez por acceitar outros amigos 
Que perto delle relinchavam forte, 
P'ra convidal-o a recambiar de norte 
E deixar a quadrilha de inimigos. 
Ao contrario, entre os novos e os antigos, 
Quiz estes, preferiu a velha sorte. 

XXV 

Com tal disposição custou mui pouco 
Encerral-o de novo no curral ; 
Não que alguém o botasse lá por mal; 
Mas porque, já canssdo de ser louco, 
De rolar, sem raízes, como toco, 
De potro se deixou fazer bagoal. 



08 GALCHADAS E CAÚCHISMOS 

XXVI 

Sentindo o laço pescoceou de novo, 
E pateou na maneia. Mas a cincha, 
A carona, o rabicho, a sobre-cincha. . . 
Nem lhe fazem pegar mais um corcovo. 
Levianito no mais. . . pisando em ôvo. . 
Desconfiado da sombra,. . . só relincha. 

XXVII 

Dessa feita, porém, o tal ginete. 
Mais velhaco que sôrro campo fora. 
Não lhe metteu rebenque nem espora; 
Deu-lhe a pé uns tirões pelo piquete, 
E depois o deixou de cavallete, 
Com arreios no lombo mais de uma hora. 

XXVIII 

Repetiu este ardil por varias vezes. 
Até que o Potro as cócegas soltou. 
E, quando certo dia se esganchou, 
Já foi p'ra camperear atrás de reses, 
Como si já montasse ha muitos meses 
Redomão que ao lombilho se entregou. 

XXIX 

Ligeiro, escareeador, agarrou fama 
De flete bom de rédea num aparte. . . 
E nelle é que apprendeu a andar com arte 
Sen Tiovo dono, moço que se chama 



GAUCHARAS E GAVCHTSMOS 69 

— Monarcha — e presumido se proclama • • 

— Senhor do Malacara — em toda parte. 

XXX 

Por ser bueno, e por ser o mais bonito, 

Luzia nos apêros ouro e prata. 

E o gaúcho, com ar de quem se trata, 

Com presumpção de ser bom patrãozito. 

Poupava o seu bagoal, a trotezito. 

Isso é que era viver com sorte grata!. . . 

XXXI 

Isso é que era viver!. . . Gordaço, guapo, 
Reluzente, ninguém diria, ao vel-o. 
Que foi elie o matreiro do cabello 
Em. maçarocas, sujo como um trapo, 
Be onde lhe vinha o nome de Farrapo, 
Que se repete com orgulho e zelo. 

XXXII 

Eis como pode ser cavallo manso, 
Sem perder a altivez, sem que se dobre. 
Conservando soberba de ente nobre. 
Um animal matreiro sem descanso. . . 

— Sujeição tolerável é um avanço, 
Ante ella a solidão é dom mui pobre. 

XXXIII 

De repente reboa pela terra, 
Essa querencia toda alvorotando. 



70 OAÍCHArjAS E (",AL"Cni:iMOS 

Tropel e gritaria, arrebanhando 
A Tropilha do Zaino para a guerra. . . 
Indo na ponta, na primeira encerra 
Lhe metteram as rédeas do commando. 

XXXIV 

Três vezes lhe fizeram este jogo 
De andar, dias e dias, sol a sol, 
Mascando o freio, qual jundiá no anzol ; 
Três vezes lhe fizeram ir ao fogo, 
E por três vezes foi o desafogo. 
Dos que ficavam em segundo rol. 

XXXV 

Como pingo de rédea no entrevêro, 
E como bom de pata numa carga, 
Em que a carreira é curta, mas am.arga. 
Gozava a gloria de chegar primeiro, 
De ser considerado o mais maneiro, 
Para esses feitos de coragem larga. 

XXXVI 

Quem não conhesce o caso de memoria. 
Contado por quem foi para quem é. 
Que o Zaino foi que pôs primeiro o pé 
Na fronteira inimiga? E, diz a historia: 
— Montado por um. taura já de gloria, 
Do mesmo pago, e que se tinha fé. 



CAUCIIADAS E GAUCKISMOS 71 

XXXVII 

Chaniaram-no na Estancia — Legendário, — 
Porque o seu nome andava em toda parte 
Como divisa de ouro no estandarte. 
Dizem os guascas que era extraordinário, 
Valente como as armas, temerário, 
Que o seu vulto no Zaino era o de Marte. 

XXXVIII 

Durante estas campanhas que relato, 
Foram vários os que nelle montaram. 
Alguns, poupando o flete, o levantaram; 
Outros atrás de gloria e de apparato. 
Crendo que o Zaino tinha alma de gato, 
Em todas as batalhas o atracaram. 

XXXIX 

Eis como teve a gloria das peleias! 
Mas chegava tão lerdo e vagaroso ! 
E da ultima veio tão sarnoso, 
Quem. sabe de que garras e maneias, 
Que só compositor cheio de idéas 
Poderia lhe dar estado honroso. 

XL 

E assim foi. O que veiu agarrou nome 
Maior do que nenhum neste serviço. 
Nas guerras não peleou; mas nem por isso 
Deu menos nome ao pago o seu renome. 



72 GALXHADAS E GAUCHISMOS 

E o que fez pelo Zaino não se some, 
Não morre assim nomais, porque tem viço. 

XLI 

Um dia se chamou — Jequitibá, — 
Alcunha que ficou para o futuro. 
E era mesmo altaneiro, forte e duro, 
Como egual com certeza hoje não ha; 
E mui difficilmente nascerá 
Nos tempos de hoje, de viver impuro. 

XLII 

Trazia o flete como sola russa. 

Lustroso e fino, e trabalhado a jeito. 

E gostava de cancha por direito 

Para os galopes, para a escaramuça. 

E mesmo assim que o bom campeiro aguça 

As patas do pingaço de seu peito. 

XLIII 

Como o lombo do Zaino é bem macio, 
E no trote ou galope ia-se arqueando, 
Nos pagos esse cuera andava, quando. 
Com enthusiasmo pelo flete, viu 
Que sua alma sonhava em desvario, 
E seu corpo esse lombo ia embalando. 

XLIV 

De novo o Malacara andou cotuba; 
E a correr nas carreiras se abalança; 



GAUCHADAS E f.AÍXHISMOS 73 

Um raio na saída, de confiança. 
Na chegada do laço elle derruba, 
De cola e crina ao vento, como juba, 
Os fletes um a um da vizinhança. 

XLV 

Mas. . . qual a vida que não se complete 
Pela sorte do fim de cada ser : 
— Nascer, gozar a vida, e padecer? 
Pois, no fulgor da gloria desse flete. 
Em que um passado nobre se reflete, 
Veiu o destino a paz interromper. .. 

XLVI 

Um dia aconteceu que, por capricho, 
Corressem da tropilha a velha Égua, 
Que se foi relinchando a cada légua. . . 
E não era p'ra menos: Um rabicho 
Custa a largar, qual nó de carrapicho. . . 
Este pobre animal soffreu, chôegua! 

XLVII 

Entrou no seu logar Potranca nova. 
Sem raiz na querencia, sem affecto; 
Deu coices nos cavallos, como inquieto. 
Desconfiado avestruz que escarva a cova. 
Como esses ovos, que não têm desova, 
Cada pingo em seu canto ficou quieto. 



74 GAUCHADAS E CAÍCHIí^.MOS 



XLVIII 



Cada gaúcho fez cia sua rédea 
O que lhe pareceu melhor cavallo. 
(E o único trabalho foi montal-o) . . . 
Houve farra na Estancia, uma comedia 
Que aos poucos se virou numa tragedia, 
Por volta de cachaça e d'algum pealo. 

XLIX 

Tocou ao Zaino um indio de má volta, 

Conhescido por Pato, e mui compadre. 

Levando de porfia, como padre, 

Que contra o mundo inteiro se revolta, 

Na teima que cavallo não se solta, 

Nem mesmo quando uma occasião se enquadre, 



Tinha o Zaino a palanque ou pela soga. 
Si montava, mettia espora e relho, 
Sem ouvir nem. aviso nem conselho. . . 
A paciência do bruto assim se afoga; 
Por isto um dia a velhaquear se joga; 
E a la fresca se vae de olho vermelho. 

LI 

Como a primeira vez, corcoveou feio! 

— ~ Inchou o lombo, e se fez de forma de arco, 

E já se impinou, teso como marco; 

Mas prompto se amacou em tal meneio 



GALCHADAS K CAUCIilSMOS (O 

Que SC disse que ao céu se foi e veiu, 
Como em mar tem.pestuoso vae um barco. 

LII 

E, num.a dessas, negaceou de um lado. 
Mas se boleou p'ra outro. Alli nomais 
Ficou por baixo e tonto o tal rapaz, 
Sem chapéu, sem rebenque, envaretado. 
Ah, não é qualquer um que sae parado, 
Quando o bagoal se atira para trás ! 

LIII 

O resultado certo do fandango 

Foi se aporrear o Zaino, indo-se embora 

Para a cochilha, onde não brota a espora, 

Nem o palanque, a soga, nem o mango; 

Onde se tem. a vida do chimango, 

Bem longe do mau trato, a qualquer hora. 

LIV 

Mais outra farra, uma potreada mais, 

Atrás do Malacara a laço e bola, 

Depois que cada um atou a cola 

Do seu cavailo (os mesmos animaes 

Da tropilha do Zaino, então, rivaes. 

Só porque o Zaino a coice o Pato enrola) ! 

LV 

Caram.ba, foi preciso ser mui mau, 
E não ter tido jeito, nem ser dextro. 



76 GAÍCHADAS E r.AlCHISMOS 

Para aperrear esse animal sem sestro! 
Assim, a tanto custo, a tanto pau. 
Só vi metter um burro num perau, 
E fazer versos quem não tinha estro. 

LVI 

Deante da força foi ganhar o matto 
Nessa occasião o Zaino-Malacara. 
E, como só de lá mettia a cara 
P'ra lhes pegar um bote, como gato. 
Por troça o appellidam — Maragato — 
O que hoje quer dizer virtude rara. 

. LVII 

Ainda desta vez appareceu, 

Como o tal Farroupilha, outro campeiro, 

Cobiçando enfrenar o caborteiro. 

Não tinha idéa de fazel-o seu; 

Queria, sim, livrar do tal judeu 

Esse pingo entre todos o primeiro; 

LVIII 

E, p'ra que se ajuntasse aos caros entes, 
Aculherar depois á Potranquinha, 
Que estava no logar da Egua-Madrinba. 
Essa, porém, a coices, mais a dentes, 
Tornou a esccrraçal-o dos parentes, 
E, assim,. . . o peleador perdeu a rinha. 



GAUCHADAS K GAUCHISMOS 77 

LIX 

Conquanto fosse cuera na pechada, 
índio desses que tiram do rodeio. 
Escorando de encontro, como esteio, 
Qualquer touro de peso e guampa afiada, 
Desde o ponto de arranque até chegada, 
Feliz como quem anda de passeio! 

LX 

Dizem todos (e quem não sabe saiba) 
Que era um typo a Cervantes (o Savedra) 
Semeava o bem, mesmo onde o bem não medra, 
Ceifava o mal a ferro e fogo e raiva; 
Tinha a impetuosidade da saraiva; 
D'aí vem se chamar — Chuva-de-Pedra. 

LXT 

A final agarraram na biboca 

O caborteiro velho, a muito custo, 

Mas depois de alguns nacos. Sem.pre um susto, 

Uma rodada, a cada um lhe toca, 

Principalmente andando-se em maloca, 

E a se agachar, para esconder o busto. 

LXII 

Foi uma judiaria nunca vista: 
— Pelos olhos atarami-lhe um pellêgo, 
E o manearam depois como borrego. 
De todos os heroes dessa conquista 



78 GAUCHADAS E CAUCHISMOS 

Quem fez menos, quem foi menos farrista, 
Peilou-Ihe cola e crina para achego. 

LXIII 

Mas esse trabuzana teve a alcunha 

Que melhor quer dizer homem de tino, 

E todo o mundo sabe: — O Pente-Fino. 

E, segundo já ouvi de testemunha, 

O tal nome-appellido entrou-lhe a cunha, 

Porque elle era biriva mui ladino! 

LXIV 

Ao levantar-se o Zaino estava manco, 
E já foi com figura de sotrêta, 
Rodando em cada cova, em cada greta. 
Nunca mais retoiçou, fez um arranco. 
Ao contrario, parado como banco, 
Vive agora amargando sorte preta. 

LXV 

Quando desata, por descuido, a soga, 
Então se bispa solto, e se enthusiasma. 
Sae a trote. . . Mas logo esbarra e pasma, 
Deante dos alambrados, muito em voga 
Para cortar o passo a quem se arroga 
O dom de liberdade (vil phantasma!). 

LXVI 

Bessa feita lhe deram por officio 

O que em qualquer estancia ha de mais vil : 



GAUCHADAS K GAUCHISMOS 79 

— Puxar uma carroça e um barril — 
Diz-que da liberdade sae o vicio, 
Dos varaes é que sae o beneficio, 
Segundo esse homem magro e sem ardil, 

LXVII 

Que o Pato no lombilho succedeu, 
E de Chimango foi appellidado. 
Não é de todo mal intencionado; 
Maturrango, porém, não percebeu 
Que esse duro systema nunca deu 
Para caso nenhum bom resultado. 

LXVIII 

O Zaino não tem mais ao campo ingresso. 
Si rumbeia p'ra lá, os cuscos mordem: 
Estar no seu palanque tem por ordem, 
Na arrasta do barril como progresso, 

— A liberdade ao Zaino é retrocesso, 
Aranganice, farra, uma desordem.... 

LXIX 

E' o matungo do andar da gurizada, 
O flete de qualquer piazinho arteiro 
Com licença de farra no potreiro. 
Escondidos na volta da canhada 
Lhe mettem o rebenque, e até guilhada. 
Buscando a balda velha ao caborteiro. 



80 GAUCHADAS E GAUCHISMOS 



LXX 



A tudo isto o Chimango vae dizendo: 
— " Meninos, não se exponham a esse risco ; 
" Esse matungo um dia pega um prisco, 
" Lastima um de vocês. Eu estou vendo 
" Que tenho de acabar dando um tremendo 
" Castigo nelle, e o reduzindo a cisco; 

LXXI 

" Não se deve judiar c'os animaes, 

" Foi o que me ensinou meu Mestre-Escola 

" E nunca mais saiu desta cachola. 

" E, sendo assim c'os bichos, quanto mais 

" Com vocês, que são gente, meus eguaes; 

" Ai deste Zaino, si elle alguém esfola!" 

LXXII 

Mas com tão frouxo aviso quem se importa? 
Vê-se mesmo que existe certo afinco, 
Que o Chimango acoberta, como zinco, 
Dessa besta acabar, deixal-a morta. 
E é isso o que se faz, por linha torta. 
Tão certo como três e dous são cinco. 

LXXIII 

O que vale é que é bueno o Malacara ! 
E quem foi rei conserva a magestade. 
Por isto guarda tal serenidade 
E paciência estampadas pela cara, 



GAUCHADAS E GAÍCHISMOS 81 

Que pode-sc dizer que a sorte avara 
O Zaino a vencerá, apesar da edade. 

LXXIV 

Além de tudo o que é preciso ver 

E' que o Zaino não anda só no mundo. 

Atrás delle outros vêm, a três de fundo. 

Pedindo a miesma gloria de vencer, 

Pelas razões que vou esclarecer, 

E sem papas na lingua, num segundo: 

LXXV 

— Ante a faca do Pato (que Deus guarde) 
Escondeu o grão. E assim ficou toruna, 
Capaz ainda de rufiar, cuê-puna! 
E, com.o a operação foi meio tarde. 
Deixou pela querencia, sem alarde, 
Crias abcche; e quê crias, ai-juna! 

LXXVI 

São ellas que mais tarde hão he vingar 
Os maus tratos que soffre o Maragato, 
Desde quando caiu nas mães do Pato. 
Velhaqueando sem fim hão de voltear 
Quem de franguinho a gallo se passar, 
E um por um deixarão redondo e chato. 

LXXVII 

Isso é que vale, amigo, — fazer crias, — 
Para que os filhes vinguem os seus pães. 



82 OAÚCHADAS E GAÍXHISMOS 

Quando estes já não possam pelear mais, 
Das injustiças e das judiarias 
Que alguém lhes fez nos seus passados dias, 
Com prevalência de armas deseguaes. 

LXXVIII 

Não é difficil ir até bisnetos 

A dôr que padeceram bisavós; 

Vae pelas veias, vae até na voz 

De pães a filhos, sob os mesmos tectos; 

São estes os caminhos, os mais rectos, 

Por elles vae-se ao fim, por elles sós. 

LXXIX 

Outra cousa que ajuda a se alastrar. 
Sem fim, de geração em geração. 
As queixas que uma tem no coração 
E' o nome que esta deixa para honrar. 
Filho de arisco tem que matrerear. 
Só a cria de guacho pára á mão. 

LXXX 

Mas antes desses contos relatados 
Outros ha também dignos de menção. 
Si vão atrás dos que na frente vão, 
E, porque, como pingos repontados, 
Os factos também andam enrabados ; 
Em pilha, uns sobre os outros, é que não. 



GAUCHADAS E GAUCHISMOR 83 

LXXXI 

De uma feita voltou de pago extranho 
Certo campeiro de presença grata, 
Chamando-se a si mesmo Democrata. 
Mas, pelas artes que agarrou no ganho 
Do estudo e do saber de bom tamanho. 
Não pode ser sinão aristocrata. 

LXXXII 

Já tinha o cabra feitos que contar, 
Quando ainda o Chimango era ninguém; 
Já andara engarupado com alguém, 
Com dous mais, sobre o Zaino, a ginetear. 
Mas de repente se mandou rolar ; 
Aquelle andar não lhe sentava bem. 

LXXXIII 

De chegada nos pagos, foi sabendo 
Das artes do Chimango valentão. 
Por ser homem de bem, bom coração, 
Andou toda a querencia recorrendo, 
E a todos os gaúchos foi dizendo 
Que ao Chimango veria pelo chão, 

LXXXIV 

Com tal fim bastaria lhe propor 
Uma carreira grande, para a qual 
Eile mesmo daria o animal, 
Pediria aos parceiros corredor, 



84 G.\L-CffAI)AS V. OAÍCHISMOS 

Elle próprio se fez compositor; 
E teve parceria collossal. 

LXXXV 

Como sabem os guascas é preciso 
Galopear e amestrar bem o cavallo, 
Como p'ra rinha se prepara o gallo, 
E ter galopeador dextro e de juizo 
Que saiba atropelar em campo liso; 
Do contrario, se arrisca a levar pealo. 

LXXXVI 

Não demorou a ir-se apresentar 

P'ra o tal serviço, que era a causa sua, 

Quem co'o Chimango andava já de lua, 

Um tal Pinto, segundo ouvi contar. 

Aficionado á rinha e a pelear. 

E o Pinto era de penna, era de pua! 

LXXXVII 

Em cada escaramuça o Malacara, 
Tendo no Icm.bo o Pinto campcraco, 
Sempre arrancava adeante do palhaço. 
Pingo duro de bocca que dispara. 
Envereda tal como capivara. 
Mas apprende a chegar de luz no laço. 

LXXXVIII 

Falar sabia bem ao pareiheiro; 
Ninguém melhor do que elle nessa arena. 



GAUCHADAS K CAÚCHISMOS 85 

Em que o rebenque é lingua, a espada é penna, 

E fez de parceria o mundo inteiro ; 

E todos arriscavam seu dinheiro, 

De enthusiasmo do Zaino, e não de pena. 

LXXXIX 

Chegou o grande dia finalmente, 
Aquelle das carreiras esperadas, 
Que de certo seriam anim.adas; 
De toda parte veiu muita gente ; 
Todo o mundo chegava de ar contente 
Das cochilhas do pago, das canhadas. 

XC 

Estava entre os presentes o campeiro 
Que appellidado foi Generãlíto. 
Em manhas de carreiras mui perito, 
E, sendo dessa feita o companheiro 
Que mais gente levou como parceiro, 
Em^ si o olhar de todos ia fito. 

XCI 

O corredor do Zaino appareceu 
Conversando que nem desesperado, 
Largando compadrada a cada lado, 
E como era costume velho seu, 
Nomes feios dizer, álguem lhe deu 
Por lhe chamar o indio Desboccado. 



SC) CA C CHADAS E GAUCHISMOS 



XCII 



Já era um guasca velho conhescido 

De rudes campereadas anteriores. 

Em que o Zaino estropeou com desamores. 

Reconhescendo esse erro commettido, 

Acreditar-se quer, e arrependido 

Correr o Zaino vem cheio de ardores. 

XCIII 

Eis que ao tranco, já perto vem chegando, 
O Chimango num triste mancarrão. 
Num matungo que nem levanta a mão. 
Parecia que vinha manquejando, 
E um maturrango o vinha maltratando. 
Pobre animal: Isso é desolação! 

XCIV 

Isso nem é carreira, é roubo certo! 

Do Zaino a parceria a gracejar 

Cola e luz offerece por jogar. 

Esse animal nem pode chegar perto, 

Ou esse tal Chimango é muito experto, 

P'ra fazer o milagre de ganhar. 

XCV 

Começaram por fim as taes partidas, 
Em que se vê o poder de cada um. 
Não levou muito a gente a ouvir zum-zum 
De que havia trapassas percebidas 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 87 

Do Chimango na cancha, ás escondidas, 
Fazendo jogo mau como nenhum. 

XCVI 

P'ra lá p'ra cá, mexeu, andou, virou, 
Tratando da carreira não soltar 
E o estado do Zaino desflorar; 
Até que a senha ao animal passou; 
Este ao outro um bom. coice lhe pegou, 
E o Zaino alli ficou de m.ão no ar. 

XCVII 

o povaréu gritava e protestava; 
Aquillo era mais roubo do que jogo, 
O Chim.ango servia só p'ra o fogo, 
E ao pelungo com raiva appellidava 
De Fraude, e m.ais irado reclamava 
Castigo p'ra esse aggravo, um desafogo. 

XCVIII 

As cansadas, soltaram a carreira, 
O corredor andou conforme apraz, 
O Desbocado uma esperança traz, 
Soltando bem o pingo, de maneira 
Que a gente respirou alviçareira. 
Mas o Zaino chegou manqueando atrás. 

XCIX 

E, como era entregar o perdedor 
O trato da parada principal, 



88 CaCcuAOAS £ GAUCUIUMOS 

Dessa vez, se saindo meio mal, 
O Democrata, seu compositor, 
Entregou o Malacara ao ganhador, 
E o Chimango encilhou o pobre animal. 



Foi tristeza geral por esses pagos. 
Sentimento profundo. (Deus me guarde!). 
Jurando um desafio p'ra mais tarde, 
Alguns houve de raiva meio gagos. 
Outros de lagrimas encheram lagos. 
A dor no coração dos tristes arde! 



Cl 



Passaram tempos sem que o Democrata 

Esquescesse o papel do tal Chimango, 

O desaforo desse maturrango. 

Que nas maturrangadas se retrata, 

E por se divertir feroz maltrata 

O pobre Malacara a espora e mango. 

CII 

De facto, contrataram a carreira, 
E o Dem.ocrata os pagos foi correr. 
Mas confiança ninguém podia ter, 
Deante do succedido na primeira. 
E a gente que accorreu foi altaneira. 
Disposta ao que pudesse acontecer. 



GAÚCHAUAS E GAÍ.CHISMOS fí) 

cm 

Essa carreira nem chegou a festa. 
Como costuma ser. Mas reunião 
De gente armada p'ra revolução; 
Porque o Chimango tinha bem na testa 
As intenções que sempre manifesta, 
De velhacada, fraude. Era um vulcão! 

CIV 

Soltaram a carreira de parado, 

Porque o Chimango andava com gambêtas, 

Nem perdia occasião de usar de tretas. 

Nas partidas piantava-se damnado, 

Sem.pre com ar de mal intencionado, 

Cem quem diz: "Commigo não te mettas". 

CV 

O Malacara velho correu bem, 
Co'as patas fez milagres, um collosso 
Que ao povo produziu justo alvoroço. 
Consentiu arrancar de atrás, porém, 
Em.parelhou, depois passou além, 
Chegou ganhando ao Fraude de pescoço. 

CVI 

Si na outra carreira liouve trapassa, 
Nesta houve mais do que isso, nem se diz. 
Houve procedimentos torpes, vis, 
Kouve fraude, houve mortes, por pirraça. 



[)0 GALCUADAS E GAUCHISMOS 

Por muito menos, quando alguém se passa, 
É costume quebrar-se-lhe o nariz. 

CVII 

Enquanto o povo alegremente dava 

Ao Malacara viva, ao Fraude morra, 

O Chimango, de meôlo, como piôrra, 

Que bera não anda, rápido saltava 

No Zaino descuidado que alH estava, ^ 

E se foi campo a fora como sôrra. 

CVIII 

Mais uma vez o Zaino foi parar 

Nas garras do Chimango, que maltratam; 

Deante disso, os gaúchos o destratam. 

Por não poderem ver sem protestar 

Assim essa carreira se acabar; 

E qualquer cousa série alli contractam. 

CIX 

Assentaram botar-lhe sobre o lombo, 
Em baixo da carona osso pontudo. 
Isso fizeram com Chimango e tudo. 
Sentindo na basteira esse calombo, 
E ao Chimango querendo dar un tombo, 
Pegou a velhaquear feito potrudo. 

CX 

O Democrata diz: "Vou ver-te agora". 
E para repontal-o contra a sanga, 



GAUCHADAS E GAÚCHISMOS 91 

Entrega aos seus campeiros essa changa. 
O Serrano de um lado faz a escora, 
O Leão e o Veado encostam sem demora, 
E o Taura de Bagé que fecha a manga. 

CXI 

O Chimango andou mal, pelas caronas, 
Charqueou de um lado e outro, a vista escura, 
Fazendo em cada arranco má figura. 
Maturrango, sem botas nem choronas. 
Desmanchou as maneiras valentonas. 
Desmanchando a terrivel catadura. 

CXII 

A sanga ia chegando, estava perto, 
E o Chimango, que a gatas se agarrava. 
Cada vez mais de lá se approximava. 
Rebentar a coalheira era o m.ais certo 
Nesse barranco perigoso, aberto, 
Que como sepultura o esperava. 

CXIII 

De repente, porém, se viu surdir 
Certo Milico que por parte vinha 
Do dono da tropilha, do Rolinha . . . 
Da pomba que tratava de impedir 
Que chegasse a rapina a succumbir. 
Tal a irrisão que a sorte escripto tinha. 



1)2 GAÚCUAUAS K OALCHISMOS 

CXIV 

De mui longe e com cara de assustado, 
Já o Milico gritava: "Façam alto"! 
E de surpresa, como que de assalto, 
Na garupa tirou o condemnado, 
Já nos estribos mal assegurado, 
Já frouxo o caracú, de forças falto, 

cxv 

Pelo cabresto veiu para a estancia 

O Maiacara cheio de pesares, 

Para o qual o mais triste dos azares 

E' o osso na basteira. Isto dá ânsia 

De ccrcovear com força e com constância, 

Até ver o ginete pelos ares. 

CXVI 

Fizeram todos uma reunião. 
Para assentar a sorte que teria 
O cavallo depois daquelle dia. 
O Democrata e o Chimango não 
Afrouxam; cada qual sua opinião 
Sustenta com fervor e teimosia. 

CXVII 

Depois de discutir aquella gente. 
Resolveram com tretas de quem joga, 
Com ar de quem não quer, enquanto roga, 
Que ao Chimango seria formalmente 



GAiXHARAS F, GAÍX"HISMnS 93 

Prohibido montar no Zaino doente ; 
E o Zaino ficaria pela soga. 

CXVIII 

Enquanto isso, fariam reformar 
As Garras que pisavam o animal. 
Foi o que resolveram afinal, 
Para a sorte do Zaino melhorar. 
Mas o Chimango, mesmo sem montar, 
Outros meios terá de o tratar mal. 

CXIX 

Deus queira que o Rolinha, de ternura; 
Pelo Chimango magro destes pagos, 
Em troca de carinhos e de afagos, 
Não abandone o Zaino á sorte dura, 
E á vida atribulada de amargura 
Que outras vezes lhe fez fundos estragos. 

cxx 

Eis a historia que já se conhescia 
Como certa por toda a redondeza, 
— Do Zaino-Malacara na grandeza, 
E depois perevudo certo dia — 
Historia que começa na alegria, 
Historia que descamba na tristeza. 

CXXI 

Mas esta historia não chegou ao fim. 
Verdade é que o Chimango inda não deu 



94 GAÍciTAiiAS K r.ArcmsMos 

Com a cola na cerca; porém eu 

Leio a sorte do Zaino vellio assim: 

— E' questão de outro dono, e mais capim. 

Para que torne a ter o que perdeu — 




CARTAS DE UM REVOLUCIONÁRIO 



Aceguâ, Abril de 1923. 



Formosa china querida, 
Vou te contar minha vida 
De acampamento, de guerra. 
De campereadas na terra, 
Desta já maldicta ausência 
Da mulher e da querencia. 
Mais comprida que as estradas 
Que se estiram desdobradas 
Por quebradas e cochilhas. 
Minha alma, aquella que encilhas 
Com apêros de carinhos 
E enfrenas com teus jeitinhos, 



96 CAIJCHADAS E GAUCHISMCiS 

Carrega atados nos tentos 

Os melhores sentimentos 

De saudades e de amor 

Pelos filhos e essa flor, 

Que nesses pagos ficaram 

E que os meus braços juetaram 

No dia da despedida; 

Mas que afrouxaram, querida, 

Come cordas relaxadas 

De viola, desafinadas. 

E tu co'os filhos ficaste, 

Para que seja o contraste 

Do que era ontem e hoje é 

Inda maior que esse pé 

De ombú da beira do rancho, 

Onde encilhava, mui ancho, 

O cavallo do meu peito, 

O mesmo ombú que está feito 

Ramada do nosso lar, 

E que pode agasalhar 

Bandadas de aves em pouso 

E um mundo de amor e gozo. 

Pois mede por esse ombú. 

Cheio de bandos de anú, 

A differença do que era 

A existência deste cuera. 

Quando ao teu lado vivia 

Contra o que passa hoje em dia. 

Não tenho mais esses braços 

Que na armada dos abraços 

Me pealavam de cucharra 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 

E me maneavam por farra: 

Nem esse rancho abrigado 

Contra os ventos de mau lado, 

No baixo, perto do matto, 

Com agua e fogo barato; 

Nem tenho mais essa cama 

Enfeitada pela dama 

A quem dei meu coração. 

Agora durmo no chão 

Em cama feita de arreios. 

Bem longe dos teus anseios; 

Minha casa — uma barraca, 

Minha cômmoda a bruaxa 

Que na garupa carrego; 

E não tenho nenhum prego 

Para pendurar a roupa. 

Quando quero tomar sopa, 

Mando ferver caracú, 

Mas ninguém faz como tu, 

Com esse gesto de salsa 

E o. tem.pêro que realça 

Qualquer prato de panella. 

Aqui se come costella. 

Churrasco dia por dia, 

Na alvorada carne fria. 

Até noite chimarrão. 

Mas todo o mundo anda são, 

Todos têm felicidade. 

Nem ninguém perde a vontade 

Da continuação da lucta. 

Que ha-de ser nossa conducta 



97 



98 GAUCHADAS E GAÚCIIISMOS 

Enquanto o gavião teimar, 

Enquanto o Chimango andar 

Com asas de palmo e meio 

Nos assustando o rodeio. 

Sofirer penas não é ruim, 

Quando se espera bom fim; 

E esse cuera rodará, 

Pois andam seccos, por cá, 

Muitos tauras e picaços. 

Que sabem saccudir laços. 

Nem erram tiro de bola, 

Nem de lança, nem pistola. 

E esse tombo he-de ser feio. 

Desses de partir ao meio; 

P'ra pagar o que desfez, 

Sem avaliar o que fez 

A nossa gente touruna, 

Que prejudicou, cuê-puna, 

Obrigando-a a abandonar 

Os interesses e o lar, 

O homem ferido no amor 

Pode cozinhar a dôr; 

Mas roubado na abastança 

Sempre está prompto á vingança. 

Por isso no tal Chimango 

Ha-de dar tangolumango, 

(E já lhe rogamos praga 

D'aquellas que ninguém, traga) 

Si não morrer de balaço 

Ou de bomba no seu paço, 

""^í^r elle é, china querida, 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 99 

Que atrapalho minha vida, 

Fazendo-a inútil, maninha, 

Qual pinho que não vê pinha ; 

Por elle amargo saudades, 

E não tem felicidades 

Quem não te esquesce um momento 

Guardando-te em pensamento. 

Como o laço que se estica. 

Mais puxa e mais teso fica. 

Quanto m^ais longe me vejo 

Tanto mais arde em desejo 

O amor deste teu gaúcho, 

Que tem por único luxo 

Poder af firmar que quer 

A mais formosa mulher. 

Candiota, Junho 1923. 

Na minha carta anterior 
Falei das barbaridades 
E das infelicidades 
Desta existência de dôr, 
A qual nem sei como pôr 
O tão almejado fim. 
Não te falarei assim 
Nesta segunda missiva 
Que leva a noticia viva 
Do que vae neste confim. 

P'ra o caso de te contar 
Pedaços desta existência 



100 GAUCHADAS E CALCHISMOS 

De interminável ausência, 
Não sei por qual principiar. 
Pode-se o laço arrolhar 
Começando da presilha, 
Mas a primeira rodilha 
Pode vir também da Ihapa; 
Por isso nenhum se escapa 
Dos septe pés da sextilha. 

Já sabes o que é tirar 

Uma lichiguana gorda. 

Não ha essa que não morda 

Quem não pode se tapar. 

Tem o pobre que aguentar 

Com o malvado ferrão, 

Que dá febre e dá sesão. 

Pois também treme quem pega 

Frio dormindo em macega, 

Com mau poncho e mau chergão. 

Conto, pois, a lichiguana 
Que o exercito tirou 
Nesta noite que passou, 
E que varou, a tyranna, 
Poncho, pellego e badana. 
Tinha sabor, a cruel. 
De mel com gosto de fel. 
Egual a esta só vi. 
Quando sozinho dormi 
Deoois da lua de mel. 



GAUCHADAS E GAÍCHISMOS 101 

Nem bem o sol se escondia 
Já tratava a gauchada 
Da cama bem arrumada. 
Cada qual melhor fazia 
O ninho, porque era fria 
Aquella bocca de noite, 
E o ventinho, como açoute, 
Arripiava o corpo inteiro. 
O enxame pica o matreiro, 
Onde quer que elle se acoute. 

Enquanto houve chimarrão, 
O frio era brincadeira. 
Nem era aquillo carreira, 
Nesse fundo de rincão 
Do Candiota e Jaguarão, 
Até o coração da gente 
Pulava forte e contente 
A cada caso, co'a graça 
Que dá um trago de cachaça. 
Com cana até o frio é quente. 

Em seguida escureceu; 

A indiada se foi ás camas. 

Feitas em cima de ramas; 

E aos poucos adormeceu. 

Sonhando, talvez como eu, 

Com batalhas e victoria 

Que ao guerreiro emprestam gloria 

Ou com a linda mulher. 



102 GAUCHADAS E CAUCHISMOS 

Como a que o teu índio quer ; 
Sonhes que são nossa historia. 

A meia noite, porém, 
Tudo cambiou por inteiro; 
Um por um o travesseiro 
Foi desertando; ninguém 
Alli se sentia bem. 
Foi grande essa madrugada, 
Pois, desperta a gaíichada, 
Botou os ossos de ponta, 
Batendo queixo sem conta 
Direito á cinza apagada. 

Os fogões se renovaram, 
E em cada um fez-se roda. 
As gaitas, cá á nossa moda, 
Gementes, na treva, soaram 
Marcas tristes que alegraram 
Estes entes entanguidos, 
E momentos esquescidos 
Passaram sem tiritar. 
Ao som da gaita, a dançar : 
E assim foram aquecidos. 

Fez-se o silencio de novo 
Pelo nosso acampamento ; 
Porque todo aquelle povo 
Ficou quente, como ôvo 
Que a ave choca em baixe d'asa. 



CAL"CHAl>AS E GAÍXHISMOS 

E dormimos como em casa, 
Até que chegou a hora 
De pular da cama fora 
Naquella campanha rasa. 

Veiu a voz da madrugada 
No clarim saudando o sol, 
Pela festa do arrebol. 
Era o toque da alvorada, 
Crystallino como a geada . 
Ver o sol que se descobre, 
Cobrindo a quem não se cobre, 
É sempre um ar de alegria 
Sobre qualquer manhan fria. 
O sol é o poncho do pobre. 

Branca estava a natureza. 
Toda pintada de cal, 
Arvores, pasto, chircal, 
Naquella manhan accesa 
Centra o frio e a tristeza. 
Quem verde quizesse ver 
Esperasse o sol nascer. 
Que seu cavallo agitasse, 
Rastro das patas deixasse, 
Para a geada derreter. 

Ouvindo o canto do gallo. 
Seguimos m.archando ao tranco, 
Pisando o tapete branco 
Que acaricia o cavallo. 



103 



]04 GAUCHADAS E OAUCHISMOS 

Aquillo foi um regalo, 

E macanudo era vêl-o; 

Mudara tudo de pêlo, 

Ficou toda rabicana 

A cavalhada, e ruana, 

Por ter branqueado o cabello. 

Manhan de geada que é calma, 
Que não levanta com vento, 
Dia de contentamento. 
De mil prazeres á alma 
E da lichiguana a palma. 
Por isso é que sem^pre digo: 
Não andar juncto contigo 
E o pesar que nesta terra 
Não tem remédio na guerra, 
No mais a guerra é commigo. 

A lichiguana contada. 
Que já vae meio comprida. 
Dou na penna já corrida. 
Tirão secco de sentada. 
E mando a carta acabada. 
Com a solemne promessa, 
Si a inspiração não tropeçj. 
De outra tropa de saudades, 
Bem gorda de novidades. 
Mas apartada sem pressa. 



GALCHADAS E GAUCHISMOS 105 



Caçapava, Julho ig2j. 

Aqui, de volta estou, minha mulher. 
Com o lápis na mão, acreditando, 
Enquanto a ponta vae gambeteando, 
Deixando atrás o rastro que a alma quer. 
Que, nesta pressa p'ra o que der e vier, 
A galope me vou de rédea solta, 
Escrevendo na estrada já revolta, 
Com as pegadas firmes do cavallo. 
Esse poema, que um dia hei-de cantal-o, 
Das saudades que morrem de quem volta. 

Não te falarei muito dessa dôr 
Que enforca o coração, que puxa, aperta, 
Como o laço que deixa a bocca aberta 
Do potro que enlaçou o domador; 
Nem mais desse viver do lidador 
A lei da natureza, ao mais ladino. 
Confiado só nas armas e em seu tino. 
Que não vê mais o rancho e a familia, 
Solito co'as lembranças, na cochilha, 
Lá onde o atirou cruel destino. 

Não mais te contarei que meu palito 
É ponta de facão, ponta de faca. 
Depois de churrasquear polpa de vacca. 
Que o fumo que fum.ei não vale um pito. 
Não; disso fica o dicto por não dicto. 
Que importa que da casca de uma imbira 



1<^'(Í GALCHADAS E OaCcHISMOS 

Faça atilho, não tendo tento ou tira, 
Que da barba-de-pau meu guai-danapo, 
S que carne nomais mande p'ra o papo 
Que outro prato não ha que se prefira? 

Já sabes de tudo isso de outra carta. 
Hoje vou te contar cousa melhor. 
P'ra que acredites que não é a peior 
Esta existência minha, que anda farta, 
Como a vida do boi fora da quarta. 
O boi solto se lambe todo, diz 
O dictado, de certo mui feliz. 
Ccmo elle aproveitei a me lamber 
Longe de ti, depois de padecer 
O que o diabo no inferno já não quiz. 

Deu-se o caso que, tendo conquistado 
O Coronel Toribio a Caçapava, 
Commandando a vanguarda, com.o andava. 
A gente desse povo alvorotado 
Por termos os borgistas derrotado, 
Para o exercito três dias deu 
De festas em que o povo resplendeu; 
E os guerreiros gozando, se esquesceram 
Dos mom-cntos atrozes que soffreram. 
Como os que o teu chirú também soffreu. 

Em primeiro logar — acclamiação — 
Do povo que manifestando vae 
Ao General que sabes, ao teu pae, 
Acs gritos pela rua, confusão. 



caCcuahas f, gaCchismos ICi 

De tropa que se aperta no rincão. 

— Viva, mais viva Estacio de Azambuja 

— -Morra o Chimango, cara de coruja! 

Gritava o povo sempre a mesma cousa, 

Como gyra na luz a mariposa, 

Como fãz quem. bebeu, depois babuja. 

Ainda que chovesse, de repente, 
Quando se viu sorrir uma chinoca. 
Que discursou, e ouvi chamar Maroca, 
E um manôjo de flores mui contente 
Passar ao General alli presente, 
Aquillo parecia a nossa palma, 
E que o scl já nascia p'ra a nessa alm.a. 
E Gaspar Cunha discursou tam.bem, 
E o segundo orador falou m.ui bem. 
Pois disse o que queria em toda caimia. 

Tocou a vez do verbo ao General, 
Que disse, e repetiu com insistência, 
Que ao povo agradecia. De eloquência 
Havia sido o Chefe. E não é mal 
Que quem m.aneja a espada por ideal, 
Quando na vida surjam occasiões, 
Como esta, de cruéis revoluções. 
Nas quaes o descontentamiento lavra. 
Do mesm.o modo jogue cc"a palavra. 
Arma com que se vencem corações. 

P'ra vermos a funcção de um bello thema, 
Representado por um.a beldade, 



108 r.AL-CUAPAS E OAÍ-fHISMOS 

Dando o braço, as senhoras da cidade 
De noite nos levaram ao cinema. 
Como sabes, eu gosto do systema 
De andar aculherado no passeio, 
Braço em braço, sem ter nada por meio, 
E, apesar de casado, por ser moço. 
Aguento bem anilho no pescoço, 
E, conforme ensinaste, cabresteio. 

A funcção dessa noite foi mui linda. 

Havia muita gente na platéa. 

A mulher que surgiu era uma déa; 

Apparecia e desapparecia, 

Virgem nossa Senhora, Ave Maria! 

Era só de se olhar, e não tocar. 

Como alma do outro mundo, p'ra assustar, 

E não fui de facão contra esse vulto. 

De nomes feios não chinguei, de insulto 

Porque era, como tu, linda de amar. 

Um guerreiro também teve a lembrança 
De escrever e dizer alli p'ra o povo 
Alguns versos de quem não é mui novo 
N'essa arte de pealar com a lambança 
Do verbo o povo, que é como criança, 
E que ao povo reúne como gado 
Aos gritos de rodeio, arrebanhado. 
E, para que conhesças esses versos 
Que são do nosso caso e são diversos, 
Mando aqui neste lote já apartado. 



GAUCHADAS E CAUCHISMOS 109 

Canto o povo do Chimango 
Que teve esse filho á toa; 
Mas á sua gente boa 
Canto bem serio, e não mango. 

Com seus coqueiros em cima 
Caçapava do interior 
Acena ao Libertador 
Exercito que se arrima. 

A nossa vanguarda andava 
Em noite de tempestade, 
Gateando co'habilidade 
O povo de Caçapava. 

E chegou de sopetão, 
Tomou o povo com presteza, 
E Caçapava surpresa 
Ficou da Revolução. 

Inda que o borgista ruja 
E a resistir mande o toque, 
Não poude aguentar o choque 
Do General Azambuja. 

Palpitando o coração, 

Por serras viemos soffrendo, 

De Caçapava fazendo 

A terra da promissão. 

A Caçapava chegamos, 
Immensa felicidade! 



IH) CAtCHAUAS K CAUCIIISiMOS 

Reforçamos a vontade 

Com que até hoje luctamos. 

Foi explendido esse dia 
Para este povo distante, 
Mas para o guerreiro andante 
Também dia de alegria. 

Tudo é bello em Caçapava: 
— Céu, terra, cerros, cochilhas; 
Na belleza de suas filhas 
Vi que essa belleza estava. 

A primeira recompensa 
Ás nossas luctas insanas 
Vem de vós, caçapavanas. 
Da vossa grácil presença. 

Sois nesse grande deserto, 
Que é a vida do guerreiro, 
Deleitoso e prazenteiro 
Oásis ao guerreiro offerto. 

Os vossos vultos mimosos, 
Engalanando a cidade. 
Lembram, a dooe beldade 
Dos anjos do céu, formosos. 

Estam.os, pois satisfeitos, 
Nós, de pagos tão remotos, 
Fazendo sinceros votos 
Que brotam dos nossos peHos. 



GAUCHADAS E CAÚCHISMOS 111 

Eil-os, os votos, aí: 
Que sempre sejais felizes, 
Que os chimangos infelizes 
Nunca mais venham aqui. 

Depois, como eu, alguns foram dormxir; 
Outros, porém., não sei que fim levaram, 
Poisque da formatura se ausentaram. 
No exercito, por certo, é de se ter 
Muita necessidade que prover. 
Sem duvida arma tendo enferrujada, 
Vi quem dissesse que ia arear espada; 
Outros, tomando m^ate com biscoito, 
Que fariam mais tarde trança de oito; 
Depois fui me deitar, não vi m.ais nada. 

Como esta já vae sendo m.eio larga, 

Machaça p'ra ser tropa de noticias. 

Apartarei o resto com caricias, 

Outro dia. Já basta como carga 

De casos doces de uma vida amarga. 

E assim não chega tudo de uma vez. 

Tropa grande se corta em mais de um lote 

P'ra que vá mais ligeiro, quasi a trote. 

Vae juncta, p'ra que mates, uma rês, 

Do pêlo da saudade, como vês. 



112 GAÒXIIADAS E OAUCIIISMOS 



S. Sepé, Agosto 1923. 

Recomeço o serviço de apartar 

Os casos da cidade Caçapava, 

Onde faz pouco tempo a força estava. 

Um lote formarão, que ha-de chegar 

Depois do que mui perto já ha-de andar. 

Um par de vaqulhonas por sinuêlo. 

Para que façam ponta vão também. 

São os desejos que o teu indio tem 

De estares com saúde, mais o appêllo 

Que faz a Deus por ti co'amor e zelo. 

No outro dia passeio na cidade, 

Cola atada do pingo, que é seu luxo, 

Exhibição garbosa do gaúcho. 

Aos grupos pelas ruas, á vontade, 

Quebrando beco, que barbaridade! 

Captivando as mocinhas das janellas 

Desse povo enfeitado assim por ellas. 

Nessas escaramuças foi-se o dia, 

Cuja noite esperada co'alegria, 

Nos deu festas melhores do que aquellas. 

A moçada do exercito captiva 
Das amabilidades desse povo. 
Fazendo o que louvei e ainda louvo. 
Com baile preparou noite festiva 
Que lhes ficasse na memoria, viva, 
Offerecida ás moças do logar. 



GAUCHADAS F, GAUCHISMOS ] 13 

Caiu gente ao baile de sobrar; 

E durou toda a noite esse fandango, 

Graças á pirronice do chimango, 

Por quem no mundo andamos a farrear. 

E na noite seguinte nova farra 
Que deixou pelos nossos corações, 
Doces echos de mil recordações. 
Recitativos, cantos na guitarra, 
Danças, folia que se foi á barra 
Do dia, mais discursos eloquentes, 
E protestos jurados entre dentes 
Aos ouvidos das cândidas morenas 
Que deram corações, mas deram penas, 
Dando saudades para quando ausentes. 

Dançar não se podia pela sala, 
Que parecia tal e qual mangueira. 
Gado a redemoinhar, tropa matreira, 
Não parava, o zum-zum daquella fala 
De gente reunida que não cala. 
De vez em quando um par n'outro pechava, 
E este p'ra aqui, outro p'ra alli rolava, 
Tal com no bilhar se vae a bola 
Depois que faz com outras carambola. 
Assim foi essa noite em Caçapava. 

Moças bonitas não faltaram lá, 
Morenas com.o são por estes pagos. 
De avelludado olhar que faz afagos, 
Cabellos côr de anú, como não ha 



114 GAUCHADAS F. r.AL'CHISMOS 

Sinão do Nonoai ao Aceguá. 
Têm nos lábios a côr da melancia 
Que apparece na polpa da fatia; 
Alguns tremerem vi de acanhamento, 
Quaes pétalas abrindo ao sol, ao vento; 
E a tez pitanga verde parecia. 

Entre muitas: Medoura de Macedo, 
E Nair Cruz, Ondina de Menezes, 
Lindas de ser gabadas muitas vezes; 
Assim Dolores e Jurema, cedo 
Mostraram bellas ser, digo sem medo. 
Anna e Morena Cunha, Alba Miranda, 
E ao lado delias todas também anda 
Noémia de Menezes, aquilino 
Perfil de real encanto feminino. 
Das mais lindas chinocas desta banda. 

Mais de uma das morenas desta festa, 
Que foi como batalha mui renhida, 
Rendeu-se alli nomais já mal ferida. 
E duvida nenhuma já me resta. 
Porque, quando se diz, ninguém contesta. 
De que esa mesma encarniçada acção 
De coração de encontro a coração. 
Foi, segundo os despojos da batalha, 
E por calculo certo que não falha, 
Um.a victoria da revolução. 

Já que falei das moças, vou falar 

Dos mancebos também, que completaram 



GAUCHADAS li GAUCHISMOS 115 

As gratas impressões que me ficaram; 
E que, segundo o que já vou contar, 
E se passou commigo e o meu par, 
As mesmas impressões foram geraes: 
Endireitando o rolo do pescoço. 
Essa, com quem estava de retoiço, 
Ingenuamente disse com candura, 
Com jeitinhos de arisca saracura: 
"Nunca vi tão bonitos, tanto moço". 

"São todos deste exercito officiaes, 

Desta raça criôla cá do sul". 

Respondi eu formal e mui taful : 

"Mas elles, senhorinha, dizem mais: 

"Que como umas das outras são rivaes, 

Não sabem apartar, e eu bem creio, 

Nenhuma destas moças do rodeio". 

Ah, nunca pude ouvir gritar o truco 

Sem cantar: "Tenho flor", por meu retruco, 

Inda que perca as cartas no carteio. 

Era preciso ver essa moçada. 

Com traje de legitimo gaúcho. 

Traje que o homem veste de mais luxo, 

E que ao guerreiro dá postura airada. 

Roda ás moças fazer, e ter em cada 

Rosto arrebatadora sympathia. 

Coragem, mais ventura e galhardia 

De quem não vinha só como guerreiro, 

Pvías também como andante cavaileiro, 

Que tem por estribeira a cortezia. 



IIH C.AUCHADAS K GAUCHISMOS 

A festa de gueireiros se compunha,' 
E é longa a lista desse illustre rol, 
De gente de valor, gente de prol: 
Anthero, Gomercindo e Cyro Cunha, 
E Camará (José), da mesma alcunha, 
Coriolano, Abbott, Palma, Clarestino, 
Costas, Franco, Toribio, homens de tino, 
Raphael, Doca, Ari, Bugre, Fabico, 
Cada qual Azambuja e bom milico, 
Camillo Mercio, cidadão mui digno. 

Luís António Porciuncula, e doutores: 

Octacilio Moraes, Carlos, José 

Antunes, Romeu Borba e Olivé; 

Veveca, Antenor Dias, moradores, 

Em Caçapava, mais os lidadores : 

João Guedes e Tiburcio da Silveira, 

Cacildo de Menezes e Pereira, 

Depois Celso Barreto, Cota Soares, 

índio Bugre, que estava entre os bons pares, 

João Portinho, sympathica maneira. 

Octacilio e Marcilio de Macedo, 
Anaurelino Rosa, mais Brasil, 
Da força que contava além de mil. 
Domingos Mascarenhas, joven quedo, 
Rodriguez (Primitivo) homem sem medo, 
Arnaldo Mello, Guasques e Cabral, 
Osório Pires, Jones Silva, um tal 
Ernesto Boitatá, mais Mário Passos, 



GAUCHADAS E GACCHISMOS 117 

Piegas, Cluve, outros e outros não escassos 
Do exercito da causa liberal. 

Falta contar apenas a festança, 
Que dessa vez se deu no acampamento, 
Bom passatempo, bom divertimento. 
Dessas farras que a gente não se cansa 
De evocar nem escapam da lembrança. 
Consistiu a tal festa, essa folia, 
Em vistas apanhar, photographia 
Da Cavalhada, mais da comilona 
Que foi servida ás damas na carona. 
E a tcios nós immortalizaria. 

Estes domaram potros de colmilho, 
Aquelle outro atirou tiros de laço. 
Uma proeza havia a cada passo, 
Com perfeita destreza e todo o brilho, 
P'ra o mulherio sentado em cochonilho, 
A quem a festa foi offerecida. 
De tudo agradou mais uma corrida 
De tirar argolinha á disparada. 
No verdadeiro tom da gauchada, 
Por aprazer a dama preferida. 

Eis como terminou nossa passagem 

Pela cidade dieta Caçapava, 

Onde a população nos esperava. 

Para nos consolar da dura viagem 

S premiar nosso gesto de coragem. 

E, como chego ao fim do meu assumpto. 



118 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 



Que deu tropa de verses no conjuncto, 
Entrevero o municio das saudades 
E os desejos de mil felicidades 
Deste teu indio que te quer e muito. 



/,/ 










f i S 4- 



1.7» i 



Lavras, Septembro igsj. 

Visto que a ausência entre nós 
Vae augmentando ligeira, 
Sm vez de laço pensei 
/5':irar-te boleadeira. 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 119 

E como me tenho fé, 
Com boleadeiras na mão, 
Deixa que corra nomais. 
Que as bolas te alcançarão. 

Esta, portanto, inda vae 
Com rodilhas de lembranças, 
Pealar-te de todo o laço 
Na armada das esperanças. 

Desta missiva, que é laço, 
Que longe atira o campeiro, 
Quereria ser a argola 
Que sempre chega primeiro. 

Como isto não pode ser, 
A presilha fico sendo, 
E o coração a cedeira. 
Onde enlaçada te prendo. 

Começo a arrolhar da Ihapa, 
Antes de rasgar a armada 
Do laço da múnha vida 
Nesta campanha estirada. 

Como sempre, é feita ao passo 
A marcha, no andar da lesma; 
A vida de acam.pamento. 
Porém, não é sempre a mesm.a. 

Ontem fez tão clara lua 
Que uma querencia alumiava. 



120 GAUCHADAS E GAUCHISMUS 

Que até o somno alvorotou, 
E á diversão convidava. 

Os tocadores tocaram, 
Enquanto em cada fogão 
Uns com os outros dançaram 
Alliviando o coração. 

E naquellas expansões 
Ninguém devia soffrer, 
O brinquedo é como a cinza 
Que não deixa a brasa arder. 

De repente em uma roda 
Surge um poeta improvisando 
Versos de provocação, 
Ao som da gaita cantando. 

Mas, eis que se ouve também 
De outro fogão outro poeta 
Que na cruzada lhe sae 
Com cantoria correcta. 

Entre cueras macanudos 
Quem uma quadra improvisa 
Prepare-se para a troca, 
Como quem no poncho pisa. 

Não ha mecha bem queimada 
Que falhe com a faísca 
Da boa pedra de fogo. 
Ouem é maula não se arrisca. 



GAUCHADAS li GAUCHISMOS 

Ao que envida outro revida, 
Logo alli de sopetão. 

São chispas de coronilha 
Que se cruzam rxO fogão. 

Mesmo assim berram dous touros 
Por cochilhas e quebradas, 
Lançando-se o desafio 
Para a paleia ás guampadas. 

Mas ha uma differença 
No desafio campeiro; 
Hoje é com gaita e não viola, 
Conforme era de pritaeiro. 

Um delles é Mário Castro, 
Com elle ninguém se mêtta, 
Outro Gravilla se chama, 
Não se assusta de careta. 

A indiada foi-se chegando 
De acampamentos distantes, 
E em breve alli se embolou 
No rodeio dos descantes. 

Um verso contra outro verso, 
Qual facão contra facão. 
Sempre no tempo de polca. 
Da Dolca de relação. 

A lua vinha subindo. 
Cada vez mais alumiava. 



121 



122 CALCHAUAS E GAÚCUISMOS 

Nos joelhos dos trovadores 
A gaita se requebrava. 

Ia ás vezes de má volta, 
Saía a quadra atrevida, 
Como ponta de punhal 
Que se mexe na ferida. 

Mas outras açucarada, 
Fructa de sombra-de-touro, 
Que agrada á primeira vista 
Por ter a linda cor de ouro. 

Alli lego, ao pé da letra, 
A contestação lá vinha; 
Não ha cuia sem a bomba, 
Nem ha faca sem bainha. 

A noite era como dia, 
E a lua como o fogão, 
De serenata e folia; 
Lembrava o nosso rincão. 

A soga, á roda de nós, 
A cavalhada, pastando. 
Acompanhava o descante 
Bufando de vez em quando. 

Um.a aqui, outras alii, 
Frágeis tendas a alvejar, 
Barracas, ranchos de pano. 
Do guerreiro repousar. 



GAUCHADAS E OAUCHISMOS 



123 



E 03 cueras da relação 
Cantavam a noite em fora, 
Despertando a solidão, 
Que nestas Quebradas mora: 




—Eu me chamo Mário Castro, 
Nome já mui afamado, 
Que corre a mão pela gaita 
E faz falar o teclado. 

H-E faz falar o teclado 
Só quem debulha como eu, 
Conhescido por Gravilla, 
O Nome que Beus me deu. 



— O nome que Deus me deu 
Me veiu do calendário, 



124 gaCchadas e gaCxhismos 

Faço pouco em qualquer outro, 
Tendo o meu nome de Mário. 

-|-Tendo o meu nome de Mário. 
Não passava deste hinverno, 
Por obra do próprio diabo 
Que os Marios leva ao inferno. 

— Que os Marios leva ao inferno, 
E cousa que não me assusta, 
E vir de lá te buscar 
E cousa que não me custa. 

+E cousa que não me custa 
Surrar-te na relação, 
Dando-te um verso que fique, 
Fique sem contestação. 

— Fique sem contestação ! . . . 
Que potranquinho velhaco! 
Pois corcoveia nomais 
Que te esporeio o sovaco. 

"^~]3. te esporeio o sovaco, 
Si não podes responder: 
"Por onde é que tu andavas 
Antes de teu pae nascer?" 

— Antes de meu pae nascer. 
Nem parto era, nem aborto, 
Por uma graça de Deus 
Não era vivo nem morto. 



r.ALCHAPAS E GAÚCHISMOS ] 25 

4 Não era vivo nem morto, 
Tal e qual vento de bucho, 
Que sae sem que ninguém veja, 
E tem cheiro de cartucho. 

— E tem cheiro de cartucho 
Quem entra mal neste mundo, 
Errando a porta da frente, 
Saindo pela do fundo. 

-|-Pela porteira do fundo 
Vae este triste cantor, 
Acuado pelos meus versos, 
Peohando no corredor. 

— Fechando no corredor, 
Se vae qualquer animal, 
Como tu, meu trovador. 
Quando te vês meio mal. 

— Quando te vês meio mal. 
Me agrada te perguntar: 
"Quantas estrellas no céu 
De noite vês a brilljr?" 

— De noite vês a brillhar 
Estrellas que contaria, 
Numero escripto co'o mar. 

Si em tinta virasse um dia. 

-4- Si em tinta virasse um dia. 
Toda a agua do grande mar, 



12i') liAlCHADAS íi CAUCHISMOS 

Nem tu nem ioda a tua casta 
Chegariam a esgottar. 

—Chegariam a esgottar, 
Si tu chegasses também 
A contar ao mesmo tempo 
Quantos grãos a areia tem. 

-f Quantos giãos a areia tem? 
Deixa que as veias te corte, 
Com teu sangue escreverei, 
Saberás depois da morte. 

Seguiam sempre cantando 
Os dous gaúchos de truz, 
Verso em verso atravessando, 
Dous a dous formando cruz. 

Até que ganhei na cama 
Feita de arreios, no chão, 
E me parei a sonhar 
Co'o3 entes do coração. 

Esta escrevo de manhan, 
Sobre o carnal da carona, 
Por não deixar sem noticia 
Meus filhos e minha dona. 

Vou encilhar o cavallo. 
Que nos commanda o clarim; 
Por isso assigno já esta 
Pondo-lhe beijos no fim. 



GAUCHADAS t GAUCHISMOS 127 

Enciihado o pangaré, 
Tomaremos nosso norte, 
Quem sabe si para a vida, 
Quem sabe si para a morte. 

Atrás de mim esta deixo, 
Rastro da minha passagem. 
Para que saibas que um dia 
Estive nesta paragem. 

No nosso rancho distante 
E em ti pensei eu aqui. 
Tive vocês na mem.oria, 
Durante os cantos que ouvi. 

Esse dia ha-de chegar. 
Que, em vez de mandar-te abraços 
Irei eu mesmo em pessoa 
Apertar-te nos meus braços. 



Hí^-- 



TROVAS 



Estes verbos são rodilhas 
De um tiro de laço armado 
Para pealar nas cochilhas 
Lindezas do pago amado. 






1")2 CAUCUAUAS li OAUCIUSMOS 



NOSTALGIAS 



Quando penso nos meus pagos 
Tenho ganas de chorar, 
E uma dôr que são afagos 
Que dão ganas de cantar. 

Como hei-de pensar com calma, 
Sem ter nó no coração, 
Nesses pagos de minha alma 
Que nunca esquescerei, não. 

Nos meus pagos chorei dores, 
Mas cantei ditas fagueiras 
Dos meus primeiros amores 
Pelas chinocas faceiras . 

Nos meus pagos ha cochilhas 
E canipinas afamadas. 
Cheias de gado e Iropiihas, 
Bom pasto c boas aguadas. 

Por um. lado vão meus pagos 
Do Rio-Negro ao Pirai, 
Por outro lado, m.ais vagos, 
De Bagé ao Jaguarí. 



GAUCHADAS E GArCHISMOS l'^[ 

O Cerro-Chato la está 
Vendo o Cerio-de-Bagé, 
E vendo os dous o Aceguá. 
Pois entre elles meu pago é. 

Dos pagos buscando o fundo 
Em dous dias nomais vim, 
Mas são maiores que o mundo 
Esses pagos para mirn. 

Eu quizera de vintém 
As vezes que tenho ido, 
Que tenho vindo também, 
E os meus pagos percorrido. 

Eu tive sempre por luxo, 
Andando no pago amado. 
De parecer bom gaúcho, 
Bem vestido e bem montado. 

Que feliz sou no domingo 
Pelo meu pago a cavailo, 
A cola atada do pingo 
Lá bem onde canta o gallo! 

Quem quizer me ver contente 
Dê-me mate, que se chupa, 
No pago estando presente, 
E uma china na garupa 

Um pago desses levanta 
O topete do gaúcho. 



];]-{■ f.ALCIIADAS Iv CAUCUrSMOS 

Quem, sendo delle, não canta? 
Quem não aguenta repuxo? 

Por isso os meus pagos canto 
Ao som das cordas c7a viola, 
E recanto o seu encanto, 
Quando aperto o nó da cola. 

Nunca foi de gente frouxa 
Um pago de domadores, 
Que tem campeiros abocha 
E afamados peleadores. 

Cada vez que no rincão 
Avisto a minha tapera, 
E' com dôr no coração 
Que revejo o que antes era. 

Quem é filho de Bagé, 
Só quem respirou seus ares, 
Poderá dizer o que é 
Longe andar desses logares. 

Sou filho de um pago rico, 
Onde se tem bom viver; 
Que outros junctem, pobre fico. 
Porque um dia hei-de morrer. 

Conhesço os pagos que estão 
Em baixo e em Cima da Serra, 
Posso até dizer que são 
Meus pagos toda essa terra. 



GAUCHADAS E CAÍCITISMOS 

Hei do pago o amor da terra, 
Do meu pago, céu azul. 
Mas o meu amor encerra 
Todo o Rio-Grande-do-Sul. 

0'Rio-Grande-do-Sul, 
Várzeas, cochilhas, colinas, 
Como pude andar êxul 
Seis annos destas campinas! 

Si seis annos não te vi 
Não foi por minha vontade; 
Tanto que longe de ti 
Criei tropas de saudade. 



]35 



-Hr< — 



1.1G GAUCHADAS E CAUCHISMOS 



AS GURITAS (í) 



O Rio-Grande-do-Sul, 
Não tem só moças bonitas, 
Tem o céu, que é mais azul, 
E a belleza das Guritas. 

Não sei de cerros mais bellos 
Que os da serra das Guritas; 
São olympicos castellos 
Que só tu, Senhor, habitas! 

Vinde ás Guritas atheus. 
Contemplar quanto se encerra 
Na magestade de Deus 
E na belleza da terra! 

Quem este mundo creou, 
Desde as eras primitivas, 
Tão lindo nada formou 
Como as Guritas altivas. 

De cima de uma Gurita 
Enxerguei deante de mim 
O Camacuan como fita, 
Quasi do começo ao fim. 



gaCxhadas e caC-chismos 137 



Lavras, Cacapava e Tocas, 
Seival, campinas bemdictas, 
Rincão do Inferno, bibocas, 
Estão ao pé das Guritas. 

A dous dias da fronteira, 
Guritas desassombradas, 
Sois da Pátria brasileira 
Sentinellas avançadas. 

Quem nas Guritas o luxo 
Dos nossos pagos não viu 
Não é completo gaúcho, 
Todo o orgulho não sentiu. 



^A?^ 



"(I) Guritas (corrupt.t. de Gu.riU) são cerros enormes da serra d. Caça- 
pova. de rocha primitiva, e formas caprichosamente architecton.cas q.,e l«rT,br.m 
templos, cistellos e guaritas de soldados. 



loS OAÍCIlAnAS E OAICUISMOS 



TERNURAS DE UM GUASCA 



Baixa os olhos, cala a bocca, 
Para esconder o pudor; 
Mas elle espia, chinoca, 
Entre o véu do teu rubor. 

Por que anda sempre corada, 
Si beijar-se ella não deixa? 
Porque, ao ser do sol beijada, 
A chinoca não se queixa. 

Numa cacimba te vi 
Junto de mim espelhada. 
Nossa sorte estava alli 
Nesse quadro retratada. 

Por cima de nós o céu 

O céu por baixo de nós, 

E entre esses dous céus — tu e eu 

Quatro que éramos dous sós. 

Quando na sanga espelhada. 
Contigo espelhado o céu, 
Eras um anjo, adorada, 
Tinhas as nuvens por véu. 



GAUCHADAS K GAL'CHISMOS 139 

Vi-te, chinoca, sesteando 
A' sombra da pitangueira, 
E o sol, a sombra furando, 
Beijar-te a face trigueira. 

Os braços de uma chinoca 
Prendem mais do que a cuiriera, 
Nos seus olhos, negra toca. 
Se perde o indio mais cuera. 

Eu gosto de ver de perto. 
Depois que arregaça a manga, 
Com seu braço descoberto, 
A lavadeira na sanga. 

Quem anda o matto costeando 
Tem que escutar com tristeza 
A lavadeira cantando 
Em coro co'a correnteza. 

A lavadeira batia 
Contra a pedra, no lagoão, 
Mas, por seu canto, eu diria 
Que era contra o coração. 

Pensei, morena, encilhando, 
Quando o rabicho botava. 
Que eu ia assim me amansando, 
E o mew bem me enrabichava. 

Quem faz paga neste mundo: 
— Por ter peleado e domado, 



l-tO GAUCHADAS K CAÍCIIISMOS 

Desse teu olhar profundo 
Hoje vivo escravizado. 

Um cavallo, porque é lindo, 
Um touro, que 6 bicho forte, 
Mais a china alegre, rindo, 
São cousas que me dão sorte. 

Chinoca, que é do teu rastro, 
Si, por contemplar quem é 
Que pisa tão leve, o pasto 
Ergue-se atrás do teu pé? 

Sinto, morena, que és pura, 
Quando te vejo ficar 
Bom/oeando na fechadura, 
De vergonha de encarar. 

De chucro fiquei tambeiro, 
De arisco fiquei costeado, 
De tanto andar no potreiro 
Do teu peito aculherado. 




N'UMA RODA DE TYRANNA 



( !.'.ntre marido e mulher; 



O Tocador. 



Tyranna, tyra-tyranna, 
Tyranna do meu rincão, 
O homen aparta a mulher 
Pechando-lhe o coração. 



Marido — Minha potranca matreira, 
De ganas de te domar, 
Co'os olhos de boleadeira 
Um dia te fiz rodar. 



112 



CALCIIAIUS E GAl CIJISMUS 



Mulher — Um dia te fiz rodar 

N'um prisco que foi um pcalo, 
Desculpa assim te falar 
Fala de égua, meu cavallo. 

Marido — Logo te encilhei de juras 
E de confissões de amor, 
Com as intenções mais puras 
Do teu chirú domador. 

Mulher — Do meu chirú domador 
Ouvi o caso contado: 
— Passou a escravo o senhor 
E o domador a domado — 

Marido — E fiz uma cousa louca, 
Alli nomais, nesse ensejo. 
Fe segurei pela bocca, 
Pondo-te o boccal de ura beijo. 

Mulher — Pondo-me o boccal de um beijo 
Pelo beiço tu ficaste; 
Buscando o mel com desejo. 
Como a mosca te atolaste. 



Marido — E te segui galopeando, 
Manunceando sem tirões, 
E ura ao outro aculherando 
Os nossos dous corações. 

Mulher — Os nossos dous corações. . . ! 
Quando aculheras o meu, 



C.AL CHADAS !•; GAICUISMUS 



14:} 



A culhcra que me pões 
Também aculhera o teu. 

Marido — De vez em quando esporeava 
Com arrufo ou com desdém, 
E as cócegas te tirava 
P'ra que me quizesses bem. 

Mulher — P'ra que me quizesses bem 
Escaramucei com outro, 
Santo António disse amen 
Tu te vieste como um potro. 



Marido — Hoje, égua minha sem par, 

Não tens manha nem capricho. 
Doce de bocca e de andar, 
Até já estás de rabicho. 

Mulher — Até já estás de rabicho... 
Quando enrabado não vacs. 
Eu adeante por capricho, 
Tu pelo beiço e atrás. 



li OALCIÍAPAS K GAUCUlSMíiS 



POR GRATIDÃO 



Entre uma chinoca linda 
E um potro de boa cria 
Eu não escolhi ainda, 
Nem sei qual escolheria. 

Tive um cavallo picaço 
Que do pago era o primeiro ; 
No rodeio era buenaço, 
Nas carreiras meu changueiro. 

Com tormenta andei perdido, 
Viajando num pingo baio, 
Que, da estrada mui seguido, 
Rumbeou pela luz de um raio. 

Qualquer matungo começa 
A mostrar a dor da ausência 
Por virar sempre a cabeça 
Para o lado da querencia. 

O cavallo que me trouxe 
Na própria querencia andava; 
Meu pesar, chegando, foi-se, 
Elle, manheiro, lerdeava. 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 145 

Quando subo uma cochilha 
E enxergo o pampa deitado, 
Sei bem que o pampa ss humilha, 
Porque me vê bem montado. 

Fazer um tiro de laço 
Num cavallo bom de pata 
E' cousa que dá laçaço, 
Isso é cousa que me mata. 

Tendo um cavallo de muda, 
]á tenho aigum.a riqueza, 
Com carne gorda de ajuda 
Faço pouco na pobreza. 

É voz da estrada ao cavallo, 
Quando o casco faz barulho: 
"Si galopeias te pealo, 
Ao tranco no pedregulho". 

"Sempre que teu pingo tope 
Chão em que pasto não brote, 
Não deves ir a galope, 
Vae de vagar, vae a trote." 

"Nã atropele o petiço 
Quem quizer chegar ligeiro ; 
Si o galope é bom enguiço, 
O trote é menos traiçoeiro". 



10 



146 GAUCHADAS E GAÚCHtSMOS 

A estrada diz ao gaúcho: 
"Si vaes perto galopeia, 
O galope é andar de luxo, 
Mas, si vaes longe, troteia". 

"Não me apure no repêcho, 
Unri cavallo árabe disse, 
No lançante puxa o queixo, 
Não me poupes na planície' 



( 1 t S 




MINHA TROPILHA DE TODOS OS PÊLOS 

Eu tenho na minha estancia 
A mais bella das tropilhas, 
Feita de todos os pêlos, 
Ao campo, pelas cochilhas. 

A egua-madrinha é branca, 
Como mamãe da tropilha, 
Pela culhera um a um 
Faz dos cavallos familia. 



O escuro do meu andar 
E o meu mais lindo cavallo ; 
Quando aperado de prata, 
Se pára que nem regalo. 



148 GAUCHADAS E GAÚCHISMOS 

Por escarceador o ruano 
Faz chover prata da crina; 
Com carinho o arrocinei 
Para o andar da minha china. 

O zaino é o meu corredor, 
De lance como avestruz, 
Nem toca as patas no chão, 
Chega no laço de luz. 

O tordilho é bom para a agua, 
Nem nunca fez papel feio, 
Lombo de fora, bufando, 
Vara qualquer passo cheio. 

Tenho o meu tordilho-negro 
Para apartes de rodeio; 
Sabe o que dizem as rédeas 
Quando lhe bolem no freio. 

Quanto aos baios tenho quatro: 
Baio amarello, encerado, 
Cabos-negros e tobiano, 
Qualquer dos quatro afamado. 

Montado no cabos-negros, 
Para meu rastro deixar, 
Basta que banque na rédea 
E de rastros fica um par. 

Baio-tobiano, piquirra, 
Das garras do meu guri. 



GAUCHADAS E GAUCUISMOS 149 

É senha da cavalhada, 
O mais lindo que já vi. 

O meu gateado é velhaco, 
O nome já está dizendo; 
Tem balda de lombo duro, 
Mas não troco nem o vendo. 

Pangaré, meu mancarrão, 
É da mansidão de um banco, 
Tropeçador não seria, 
Si não fosse meio manco. 

Dcuradilho, reforçado, 
Lombo de bom encilhar. 
Para trotear anda só, 
Cavallo de bom andar. 

O bragado é caborteiro, 
O mais sestroso que tenho; 
Mas para a lida pesada 
Sempre foi meu desempenho. 

Quando quero fazer viagem 
Monto no pingo rosilho, 
Marchador e resistente. 
Guapo até p'ra comer milho . 

É bom cavallo de campo 
O lobuno candongueiro. 
Tem por manha vender garras 
E disparar de matreiro. 



150 GAUCHADAS E GAUCHISMOS 

O alazão é mordedor, 
Ao mesmo tempo mui dextro; 
Como todo pingo bueno 
Não deixa de ter um sestro. 

Velhaco tenho outro pingo, 
Compaheiro do gateado, 
E meu cavallo picaço 
Que ficou meio aporreado. 

O colorado é dos bons. 
Onde houver flete que valha 
Não fica atrás o vermelho; 
A cor do sangue não falha. 

Outro pingaço de lei 
E meu cavallo tostado, 
Tem por signal roncador; 
Sendo suro é bem marcado. 

Não ha esse que não goste 
Do meu flete requeimado ; 
Fazendo-lhe certa senha 
Pula sanga e aramado. 

Lido todo o dia inteiro 
No meu matunguinho mouro, 
Que tem corpo de petiço, 
Mas tem a força de um touro. 

Não posso cruzar a perna, 
Quando ando no malacara; 



GaCchAUAS li GAUCHISMOS 151 

O nome já está dizendo, 
Prisca em má volta e dispara. 

O estrella, passarinheiro, 
De vez em quando olha o céu, 
E chega a dar cabeçadas 
Nas abas do meu chapéu. 

Sempre gostei do quadralvo 
Bom de pata sempre foi, 
Nunca ouvi que se dissesse 
Que rabonasse algum boi. 

O cruzado é bom de rédea, 
E ligeiro de montar, 
O senão deste cavallo 
É seu vicio de coicear. 

De tanto apanhar na doma, 
Hoje o barroso é mesquinho, 
E só se deixa enfrenar 
Torsendo-se-lhe o focinho. 

Não gosto muito de andar 
No que tem o pêlo ouveiro, 
Por ser negador de estribo 
E lunanco e caborteiro. 

Tobiano-vermelho é maula, 
E o meu tobiano é silhão, 
Não tenho na cavalhada 
Outro de peior condição. 



152 GAUCHADAS K CAUCHISMOS 

Porém o tobiano-negro, 
Com andar de sobre passo 
Ganha de estima e valor, 
Por ter esse dote escasso. 

Um dia foi aplastado 
O meu cavallo salino ; 
Desde isso ficou cansão 
E do andar do meu menino. 

Que o cebruno é macanudo 
Não é sabido de agora, 
Não nega fogo esse pêlo, 
Nem é cavallo de espora. 

O pampa é de mau andar, 
Corcunda e baixo de deante ; 
Aperto as garras atrás. 
Mas correm no mesmo instante. 

O salgo nasceu petiço, 
Engordou, ficou maceta 
E bichôco e perereca 
Esse matungo sotrêta. 

Anda sempre se bombeando 
O entrepelado, de arisco. 
Ás vezes da propia sombra 
Assusta-se e pega um prisco. 

Quanto ao zaino-pangaré. 
Encosta só no arrancar: 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 153 

Mas pega o freio nos dentes 
E dispara até cansar. 

O meu mouro rabiçano, 
Agarradcr de avestruzes, 
Tem o galope macio, 
Por ser bem alto de cruzes. 

Varando arame deitado, 
O azulejo se rengueou, 
Rebentou o tendão da pata 
De tanto que se enredou. 

Eis aí minha tropilha, 
Meus cavallos de campeiro. 
Em que garanto que posso 
Recorrer o mundo inteiro. 



151 GAUCUAliAS K r.ACcillSMOS 



AS ESTRADAS 



As léguas que estão deitadas 
Na maciez do capim, 
Sempre á beira das estradas, 
Dizem que estas não têm fim. 

Estradas, fitas de arrastro, 
Que se somem pelo além, 
Vão rastejando entre o pasto, 
Para lá levando alguém. 

Quando vou longe do pago, 
A trote, na estrada real, 
Conto as saudades que trago 
Nas pisadas do animal. 

De fitas e de mil cores 
Vi cochilhas enfeitadas. 
Era um atilho de flores 
Entre nós de encruzilhadas. 

Quando uma estrada se faz. 
Uma fita se desata, 
E fogem léguas atrás 
Do feixe que ella reata. 



GAUCHAPAS E GALCUISMUS 155 

As dores do coração, 
E as alegrias também, 
E' pela estrada que vão, 
E' pela estrada que vêm. 

Si com saudades intensas 
Vou-me ausentando do ninho. 
Porque acho as léguas im.mensas, 
Não posso amar o caminho. 

Amo uma estrada qualquer. 
Quando esse caminho guia 
A'china, minha mulher, 
Que ha muito tempo não via. 

Dizem que o rastro do pé 
Prova a vida do vivente; 
Como rastro a estrada é 
A prova de muita gente. 



1.3() r.AÚCHADAS E GAÍCHISMOS 



O BICHARÊDO 



Canta um cardial no arvoredo, 
E taes cantos desenrola 
Que se apprende muito cedo 
Rasgar tyrannas na viola. 

Ha muito que o tico-tico 
Não tem maneia nas pernas, 
Pula inda, porque a maneia 
Sempre dá penas eternas. 

Tem seu emblema sagrado 
Qualquer um povo da terra, 
O quero-quero do prado 
E*" o nosso emblema de guerra 

Si o campeiro dorme fora 
Coberto pelas estrellas, 
E' que o quero-quero mora 
Alli, como as sentinellas. 

As andorinhas da sanga 
Levam a gente pr'as casas, 
Fazendo reponte e manga, 
Enliando a gente nas asas . 



GAÍXHADAS E GAÍXHISMOS 157 

O nhandú ao resmungar 
Faz o tom de admiração. 
Mas o seu pescoço no ar 
Parece interrogação. 

O grachaim da biboca 
Vive em silencio, mui longe; 
Mas de lá mesmo, da toca, 
Vê tudo esse fino monge. 

Só sae de noite o ladino, 
E, sem que o cachorro o morda, 
O sorro, bicho de tino, 
Come a borrega mais gorda. 

Quem tem parelheiro á soga 
Extenda a cama na estaca, 
O sorro masca e não roga 
Mesmo o coiro da guaiaca. 

Sim, ha tristeza no pampa; 
Mas ella mostra grandeza 
E' quando o joão-grande acampa, 
E se encolhe na tristeza! 

Pássaro triste o anú, 
Pennas negras de carvão; 
Elle canta como tu 
Lanceando-me o coração. 



158 GAUCHADAS E GAÚCHIS^rOS 

Si pousa n'arvore bando 
De anus a passarinhar, 
Vejo-a enluctada chorando, 
Na voz do bando a cantar. 



GAUCHADAS E C.AUCnTSMOS 350 



JARDIM DE AMOR 



Maracujá da Paixão 
Symbolizas o martyrio, 
Mulher do meu coração, 
Es a flor do meu delírio. 

A flor da noite, fechando, 
Desapparece de dia. 
Tu desappareces quando 
Se esconde o sol da alegria. 

Margaridas te mostrei. 
Não disseste qual preferes, 
Eu, mal te vi, te apartei 
Do rodeio das mulheres. 

A madresilva de casa 
É o adorno da janella; 
Com seu olhar, que me abrasa, 
Enfeita-se a minha bella. 

O agua-pé floresce n'agua. 
Que elle alegra co'a ecrolla; 
Mas a flor que adoça a magua 
É a mulher que me consola. 



IGO GAÍCHADAS E GAUCHISMOS 

A raiz do macachim 
E doce e alva, a flor viçosa; 
Teu corpo é doce, alvo, assim, 
Teu rosto sua flor mimosa. 

A larangeira na flor 
De anno em anno se renova ; 
Com teus carinhos, amor, 
Sempre me pareces nova. 

Vendo a corticeira em flor 
E seus cachos encarnado-;, 
Penso em ti, meu lindo amor, 
Nos teus topes colorados. 

O mal-m.e-quer diz que não, 
Mas também diz que me queres; 
Sempre diz meu coração 
QuQ és dilecta entre as mulheres. 

Por que é rubro o caeté 

Que nos expliquem os sábios; 

Mas eu bem sei por que é 

Que estão rubros os teus lábios, 

Do taruman com espinhos 
Colher a flor custa um pouco; 
Para colher teus carinho? 
Também me vi meio louco. 

E do espinilho a belleza 
Ter as flores com perfume; 



OAUCHAIíAS K GAÚCUISMOS IGl 

Do amor a vera grandeza 
É não amar sem ter ciumc. 

Como o aroma do espinilho, 
Cheio de flores de odor, 
Achei que era, em doce idyllio, 
O hálito do m.eu amor. 

Os papelotes que pões 
Na cabeça, quem dirá? 
Lem.bram flores e botões 
Na copa do camboatá. 

É roxa, lânguida, linda, 
Triste a flor da canjirana: 
Teus olhos são mais ainda, 
E meu gosto não me engana. 

Tuna, qual arvore boa, 

Dá flores, depois dá fructa, 

Mas, sem folhas, e sem sombra, 

Toda eriçada de espinhos, 

Como as mulheres á toa, 

É o passante que a desfructa 

Vendo-a nua nos caminhos! 

"Alecrim, verde, cheiroso. 
Da janella do meu bem" — 
Quizera eu ser tão ditoso, 
E viver alli também. 



lt)2 GAUCHADAS V, «'.ALCIIISMOS 

A primeira vez que andei 
Ao pé do teu coração, 
Cheiroso ramo te dei 
De um pé de mangerição. 

As flores das açucenas 
São de variegadas cores; 
Assim tam.bem ha centenas 
De mulheres nos amores. 

Tem espinho a flor do cardo, 
Espinho que fere e espeta, 
Mas o amor também tem dardo, 
Mas o amor também tem seta. 

Ao sopro do vento acena 
A palma do buriti ; 
Lembra a tua mão amena 
Chamando-me: Vem aqui. 

Cravo do matto encarnado. 
Seu enfeite e parasita, 
É teu cravo colorado 
Esse teu laço de fita. 

Amarella, a flor do ipé 
Também tem a côr do ouro. 
Tua cabelleira é 
Como esse fulvo thesouro. 



GALCHAUAS H GALCHISMOS ] 6-3 



VERSOS EM PENCA 



Cochilha, ubere eternal. 
Que ricas veias encerra, 
01ho-d'agua, manancial, 
Teto desse ub're da terra. 

Canto na ronda o meu fado 
Por disfarçar o abandono, 
Por fazer dormir o gado, 
E afugentar o meu somno. 

Sei me rir e sei brincar 
Numa roda de fogão, 
Mas também sei manejar 
O ferro do meu facão. 

Com viola boa atrapalho. 
Quando canto em desafio, 
E jogo também o talho 
Tendo um. ferro de bom fio, 

No poncho encobre-se tudo 
Que tem o gaúcho pobre. 
Mas o rico perevudo 
Só com dinheiro se encob-c. 



Kil CaCciíADAS !•; CALCrnSMOS 

o rancho do pobre fica 
Contra a sanga da canhada, 
Perdido na tiririca, 
Mas a dous passos da aguada. 

Os ricos têm as estancias 
No mais alto das cochilhas, 
Por divisar as distancias 
E as querencias das tropilhas. 

Gaúchos, vistam o palia 
Que lhes encobre o facão, 
Uma arma escondida fala 
Antes que esteja na mão. 

O guasca, no povo estando, 
Rumbeia para a cochilha 
Como o potro relinchando 
Desgarrado da quadrilha. 

Quem campereia d'em pêlo 
Arrisca menos perigo; 
A cincha é peior que novello, 
Arrastra a gente consigo. 

O guasca aborrece tanto, 
Ou mais que o sceptro dos reis, 
Porque os embretam no canto, 
Os alambrados e as leis. 

Por que existem alambrados 
Apequenando as estancias, 



GAUCHADAS E CAUCHISMOS IQq 

Deixando os campos picados, 
Encompridando as distancias? 

Cousas que doem no pampa: 
— Campo rapado, uma cruz, 
Um touro mocho, sem guampa, 
E o resmungo do avestruz, 

Diz-que sou mau inimigo, 
(E eu nunca disse não ser) 
Mas que sou m.ui bom amigo 
Ninguém pode desdizer. 

Ao campo nomais se cria 
O que um patrão pode ter 
Para que a peonada ria 
E feliz possa viver. 

Do dinheiro ando me rindo, 
E me rio sem receio. 
As vaccas estão parindo. 
Tenho a burra no rodeio. 

Quiz saber gringo do pago 
Se ganhei nas marcações : 
— "Muito, lhe disse, o que trago 
"De alegres recordações." 

Por galopear umas éguas 
Soffri penas sem eguaes. 
Caminhei dias e léguas. 
Fui e vim rindo nomais. 



KJG GAUCHADAS K GAÚCHISMOS 

Deixo logo o rancho alheio, 
Quando o dono anda aperreado, 
Por não lhe metter o freio, 
Ou por não ser eu domado. 

A natureza foi boa 
Com este povo gaúcho, 
Que tem liberdade á toa, 
Lida cantando, por luxo. 

Ha perigo de morrer 
Na peleia mano a mano; 
Mas ha gloria de vencer; 
Prefiro esta, e não me engano. 

A franqueza do gaúcho 
Me faz logo escravizado, 
Desço-lhe as tripas do bucho, 
Quando me olha atravessado. 

Eu sou pau p'ra toda obra, 
Na lida como na farra, 
E quando o meu tempo sobra, 
Toco e canto na guitarra. 

Eu sou mateador de lei, 
Porque o mate amargo cura, 
E triste nunca cheguei 
Até o fim da sevadura. 

E' mui differente a sorte 
Sob o mesmo céu azul ; 



r.AUCITAriAS E GAÍXHIS.MOS Jtí' 

Choram gringos pelo Norte, 
Cantam gaúchos no Sul. 

Trabalhar n'outros países 
Dá lagrimas e dá dor, 
Os guascas são mais felizes, 
Pois trabalham com amor. 

Sim, quem. na enxada botal-o 
Verá o guasca manherear; 
Mas bote um gringo a cavallo. 
E esse gringo ha-de chorar. 

Diz quem não vê camperear 
Que os guascas vivem vadiando; 
E acaso não é lidar 
Porque se lida cantando? 

Lindos campos enxerguei, 
Vi-cs cheios de tristeza; 
Talvez seja o que não sei 
Da sua própria belleza. 

Os campos criam riqueza 
Tupindo o pasto no chão, 
E me inspiram a tristeza 
Que crio no coração. 

Saudade abafada é magua; 
Como cortiça afogada 
Que vem mais p'ra cima d'agua 
Quanto mais é mergulhada. 



168 GAUCHADAS E GAÚCHISMOS 

Quem quizer ver pagos lindos 
Venha ver o Camacuan, 
Cerros e campos infindos, 
Terra forte, gente san. 

E linda a gaúcha vida, 
Que de tudo tem um pouco, 
Tristezas de alma ferida 
Com alegrias de louco. 

O meu viver é tobiano, 
E tobiano negro em tudo. 
De esperança e desengano, 
Tem o pêlo macanudo. 

— Cada terra tem seu uso — 
O Rio Grande tem o seu, 
Uso que chega ao abuso 
Dos bens que a terra lhe deu. 

Quando vejo uma peleia 
De dous tauras deseguaes, 
Lhe compro a parada a meia 
Ao que já não pode mais. 

Amigo, tome este trago, 
A canna bem lhe fará. 
Um gole não faz estrago, 
Amigo, venha de lá. 

Não diga que não, amigo. 
Um trago não se rejeita, 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 169 

Não me faça um inimigo. 
Me íízendo esta desfeita. 

Eu gosto de andar na guerra, 
Sempre que a Pátria me chama. 
Para defender a terra 
Em que se nasce, e q\:e se ama 

Não é por ficar na toca 
Que não se morre, por certo, 
A morte é p'ra quem lhe toca, 
Morrer no combate é incerto. 

Eu gozo um lindo m.omento, 
Quando a canhada se coalha 
De indiada no acampamento. 
Nas vésperas da batalha. 

Si não me toca morrer. 

Que me importa a guerra, amigo? 

Tendo carne p'ra com.er, 

Faço pouco no inimigo. 

Caminhar dias e m.eses, 
Viver de arriba na terva. 
E pelear algumas vezes. 
Eis no que consiste a guerra. 

O pampa tem uma fera: 
O touro que afia a guam.pa, 
Em dia de primavera, 
Contra um barranco do pampa. 



170 



c*ciraAi»A5 E o^incBTÇiiif»? 



Qne a lio»o do tciiro é esta: 
— Desprerar a quem se deita, 

K só pciesr cíxs. rrf— rrfíta. 



"*™^'-; -'f^i^&ãf^-Í^É^.\ 



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172 GAUCHADAS E CAÚCHTSMOS 

Cruzei aqui mais alli, 
Solito por toda parte; 
Mas, como nada me farte, 
Pagos alheios corri, 
Muito bochinche m.etti, 
Em canchas de taba e rinha, 
Namorei muita chininha; 
E tudo fiz por saber 
Qual era o melhor prazer 
Que a vida gaúcha tinha. 

Depois de muito provar 
O que tem a vida boa 
Do gaúcho que anda á toa. 
Sem ter querencia nem par. 
Que trabalha por farrear, 
Sentei que nada se eguala, 
Nem nada tanto me abala. 
Tanto me serve de afago. 
Como as carreiras do pago. 



Isso sim, é que me peala! 

Cuê-puna, que é divertido. 
É cousa de enthusiasmar, 
O seu flete adelgaçar, 
E apparecer presumido, 
Bem aperado e vestido, 
Na reunião das carreiras. 
Ser das figuras primeiras, 
Tal como quem não quer nada. 



OAUCIÍAOAS )■; !;aUC1!JS.M0S 173 



A figura mais olhada 
Pelas chininhas faceiras. 



Ao guasca da minha casta, 
Que tem coroa de macho : 
— Chapéu no alto e barbicacho - 
Ser monarcha não lhe basta 
Da cochilha em que o boi pasta; 
Rei do campo sem ninguém 
É illusão que muitos têm; 
Mas ser primeiro de um povo, 
Esse é rei, e sem retôvo. 
Rei entre os homens também. 

A trotezito na ida, 

De longe o povo se avista 

Redemoinhando na pista, 

Como guçano em ferida 

De bicheira apodrecida. 

Quem vae chegando se arrancha 

E a gente ladeia a cancha 

Desde a saída até o laço, 

Como carne de espinhaço 

Que nem o tempo desmancha. 

Como a mulher que se tapa 
Escondendo a formosura. 
Também cobre a compostura 
O parelheiro de capa, 
E passo a passo se escapa 
Leviano deixando o rastro. 



174 (lALCHAUAS )■; GAUCHISMdS 

Pisando faceiro o pasto, 
Pois sabe que é bicho lindo, 
Que todos o vão seguindo 
Cobiçando p'ra seu basto. 

Chegando ao tranco nomais, 
Confiado no meu facão, 
Me nietto na multidão. 
Buscando volta aos bagoaes, 
Vendo marcas de animaes; 
Que o guasca sente alegria, 
Quando encontra e desafia 
Changueiro de boa raça. 
Como cachorro de caça, 
Vale o pingo pela cria. 

Quando acho algum do meu gosto, 
"Chá"Chá" lhe faço o primeiro, 
Pelo as garras do changueiro, 
Senhor de mim e disposto, 
E grito nomais que aposto 
Todo o dinheiro que tenho; 
Pulo no meu desempenho, 
De-em.-pêlo, rebenque e freio; 
E começa o meu recreio 
Nas paradas por empenho. 

Faço partidas com jeito, 
Como nas rinhas de gallo. 
Arrematando o cavallo 
Que monta o outro sujeito; 



gaCciiauas e cauchismus ]^75 

N'uma dessas, si me ajeito, 
Arranco que nem cabrito, 
"Solta na frente", lhe grito, 
E atropelo repontando; 
Depois a luz vou tirando, 
Conforme já estava escripto. 

Outro momento que agrada 
No decorrer da carreira, 
É, quando baixa a bandeira, 
Depois da sorte comprada, 
Bradar co'o povo que brada: 
"Já se vieram", esperando 
Que os bichos passem bufando 
Co'a nossa sorte nas patas, 
Chatinhos que nem baratas 
Que vêm que parecem voando. 

Quando a carreira se acaba. 
Si me resta cobre ganho. 
Vou repontando o rebanho 
Dos meus milreis para a taba. 
O vicio ao vicio se enraba. 
E até, sem ter boa aragem, 
P'ra perder tenho coragem. 
Pouca falta faz o cobre 
Áquelle que é mesmo pobre ; 
Pobreza pouca é bobagem. 

Depois da carreira e jogo. 
Caio no baile, na dança. 



176 CAUCllADAS li GAUCHISMOS 

Movimento que não cansa, 
Que ao coração dá mais fogo 
Dando ao pesar desafogo; 
Uma chincca no braço, 
Com graça e desembaraço, 
Faz esquescer a pobreza. 
Pois essa china é riqueza 
Que me segue passo a passo. 

Assim vivo um par de dias 
No meio da gaíichada, 
Numa troça declarada. 
Sem pensar nas arrelias. 
Entre farras e alegrias. 
E, si algo me desconsola, 
Conto os pesares á viola, 
Até que rumbeio a estrada 
Levando por compadrada 
Bem atado o nó da cola. 




J^^:^^v^fe=:^£^ 





CANÇÃO DA TABA 



Da cancha n'uma ponta, 
Com a taba na mão, 
Gozo a maior paixão 
Que minha alma reponta. 
A idéa já não conta 
Os dias e os meses 
E as infinitas vezes 
Que esta mão tem jogado 
E o braço balanceado 
Esse caracú de reses. 



Passo horas esquescidas, 
E nem posso esperar 



J78 CALCHAnAS E GAUCHISMOS 

Sem na sorte arriscar 
Entre duas partidas; 
Ou ganhas ou perdidas, 
Do osso vou namorando. 
Desde que o vejo voando, 
Até bater no chão, 
Os requebros que vão 
Por cima se meneando. 

De cravada é m.eu tiro, 
Que uma cravada é o luxo 
De todo bom. gaúcho; 
E o golpe qi.e prefiro. 
Volta e meia no gyro, 
Se reboleia assim, 
Tal qual o borlantim, 
Que de repente pára, 
Dando sorte co'a cara 
De risada sem fim. 

Mas, si é do meu agrado, 
Faço o osso galopear 
Até justo o logar 
Pelos olhos marcado. 
O osso corre laçado 
No tiro do carreiro, 
E se mexe ligeiro. 
N'uma dessas esbarra 
Pealado de cucharra, 
Assim como terneiro. 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 179 

Faz-se a cancha de lama 
Que com o pé se alisa 
E só a taba repisa, 
Suave cancha que é cama 
Feita para uma dama 
Livre se remexer, 
Até adormecer 
Mostrando sorte ou culo, 
E que se afunde no pulo 
De cravada a valer. 

Conto sempre co'a sorte 
Da taba manunceada. 
Como mulher amada, 
Sendo seu dono forte, 
Posso me dar o corte 
De dizer que na cancha, 
Onde a taba se plancha, 
Tenho-a por minha amiga. 
Dilecta rapariga 
Que commigo se arrancha. 

Nesse jogo do peito 
Não se requer a força, 
Mas que o corpo se torsa 
E se amaque com jeito. 
Não é qualquer sujeito 
Que sacode uma taba; 
O pichote se baba, 
Mas não faz galopear 



180 GAUCHADAS K GAUCHISMOS 

O OSSO p'ra ganhar. 
Não ganha quem se gaba. 

Não posso ficar mudo, 
Quando ella galopeia; 
Com cara alegre ou feia 
Na taba jogo tudo. 
O cuera macanudo 
Arrisca seu dinheiro. 
Roupa, cavallo, apeiro, 
E até joga a mulher, 
O ente que mais quer 
Depois do osso sorteiro. 



— >^s< 



GAUCHADAS F, (;auchismos 



181 



Interpretação cias metaphoras 

do poema histórico: MAL COMPARANDO, 

da pag. 6 í 



Teudo sido poucos os leitores que, na primeira edição, perceberam 
as analogias e penetraram no verdadeiro sentido dcs tropos desto 
]'oema, resolvi, a pedido de bondosos amigos, explical-o, para que 
fique menos obscuro. 

Quer dizer que me colloco cxpontaneamente na situação do retra- 
tista que precisa escrever em baixo do retrato : Este é FvJano de 
Ta\ Más essri imperfeição será, com certeza, perdoada pelos mag- 
nânimos leitores, deante da clareza de que se reveste agora o 
poema. 



Estrophes 
I, Zaino — Malacara. . 



Explicações 

Iiio Grande do Sul c^ue se afez ás in- 
cursões 110 Uruguai, e derrubou o Pre- 
sidente Braga em 1835. 

Doscripção do meio rio-grandense. 

Uruguai. 



IT, TTT 

TY hinvernada vi- 
zinha .... 
... do seu do:io prote- Protegido pelos nossos governantes do 
gido .... centro contra a malevolencia de Arti- 

gas e outros chefes orientaes, relati- 
vamente aos brasileiros que vi\dam no 
Uruguai. 

V. . . Tropilha Brasil. 

Egua-Madriulia . . ^lonarchia ou ^[ii.nicipio Neutro. 

Potranco líio Grande do Sul. 

Dezcnove matungos As outras Províncias do Brasil, 
A'^T. . . As crinas balan- 
ceando á ventania A Ijandeira brasileira. 

Vir, VIIT, IX I'rimeiras medidas restrictivas da antiga 

liberdade gaúcha, em forma de nov'>~ 
impostos e maior policiamento. 



1^2 r.AUCHADAS E 0AÍ.CUISMOS 



Estrophrs Exi>'icaçôcs 

X licacção dos lio-giandeiii-es «jue apeiam 

o governador Fernandes Braga, em 
1830, tendo á frente o Gral. Bento 
Cioni-alves. 

XI Proclamação da Rcpubli^-a (1836) pelo 

Gral. António Nctto. 

Xll \ Revolução prosegue. 

XIII, XIV Bento Gonçalves. 

XV A sua acção em torno de l'urto Alegre 

e a sua evasão do Forte do Mar. 

XVI O empenho da repressão da revolução 

e a pertinácia dos revolucionários que 
chegam á miséria. 

XVJl, X\'I1I, XIX.... Du()ue de Caxias e a sua acção concilia- 
dora e pacificadora. 

XX, XXI, XXII Ou harmonia dentro da unidade brasi- 

leira ou independência. 

XXIIl Accjuiesceucia dos rio-grandenscs á paz 

honrosa . 

XXIV Recusa dos rio-graiideuses aos acenos de 

nlliança quer dos Blaucos de Oribe, 
quer dos Colorados de Rivera . 

XXVI Apprehcnsões dos gaúchos quanto ao 

cumprimento das clausulas da paz. 

XXVII. XX\'I11 Acção edificante e minestra de Ca.xias 

na politica rio-grandense. 

XXIX. Monarcha D. Pedro 11, que obteve a maioridade 

em 1840, e começou a governar em 
plena Revolução dos Farraj^íos. 

XXX Benevolência de D. Pedro para com o 

Rio-Grandc, e admiração pelo seu 
povo. 

XXXI. . . . Farrapo. . . . l'euominação dos revolucionários de 183-3 

a 1S4.5. 

XXXIll Invasão contra Rosas (18.51), sob o 

eommando do Conde de Porte Alegre, 
indo o Rio-Grande na frente. 

XXXIA'. . . . Guerras contra Rosas (1851), contra os 

Blancos (1864), sob o eommando de 
Tamandaré e Menna Barreto, contra 
Lopes (1865), sob o eommando de 
Osório e Porto Alegre. 

XXXV Referencia ás cargas de caballcria. 

XXXVI l'asso da Pátria por Osório. 



CAUCHAUAS E GAÚCHISMOS 183 

Eslroplics ExiPicuçõcs 

XXXX\'[T. . . LegeudarioOsoiio. 

XXX^'Iir Miíre sacrificou os rio-graudenses con- 

fiando aos brasileiros as posições mais 
arriscadas. 

XXXVIX Estado de penúria em awi ficou o Rio- 

Grande após a guerra. 

XL, XLI Jequitibá Oaspar Silveira Martins. 

XLII Gostava de cancha 

por direito Refere-se á sua recta couducta cívica. 

XLIIII Seu amor e enthusiasmo pelo RioGrandc. 

XLIV Rápidos progressos da Provinda sob a 

acção de Silveira Martins, em finanças, 
colonização, estradas, etc. 

XLVI, XLYII i'roclamação da Republica. 

Potranca X^ova V Republica, exótica e extemporânea 

para nós. 
Deu coices nos cava- 

Uos 

Cada pingo em seu 

canto ficou quieto Referem-se á dispersão federativa. 

XLVI 11 Refere-se ás oligarcliias estadoaes. 

Por volta de cachaça Refere-se á lamentável realidade de se- 
rem ébrios em geral os moços da gera- 
ção que preparou e organizou a Repu- 
blica, assim concebida entre baforadas 
de álcool. 

d 'algum pealo Refere-se ás arbitrariedades e desmandos 

dos primeiros governantes. 

XLIX Pato Júlio de Castilhos. 

padre Analogia com a sua posição de cliefe da 

seita positivista. 

L, LI, LTI Effervescencia popular e c[ueda de Ca.s- 

tillios . 

LIII iíevolução federalista. 

LIV O Brasil inteiro contra os federalistas. 

LVI Os Federalistas nas mattas do Norte do 

Estado de Santa Catharina, c em Pa- 
raná. 
LYir, LVIII, LIX. LX. Sculio de reunificação do Brasil, incar- 
nado em um dos chefes da R^evolução. 
Chuva-de-Pedra .... (iomercindo Saraiva. 
LXl, LXIT Refere-se á acceitação da paz pelos Fe- 

deralistas. 



184 



GAUCHADAS E OAÚCHISMOS 



Ef^t milhes 



lixinicaçõcs 



Telos olhos atíiiain- 
llic um pellef,'o. . . Refere-se ás promessas fallazcs para con- 
seguir a paz e á traição do governo 
não as cumprinflo. 
LXIIl. . Peute-Fino. . . . Pinheiro Machado. 

IjXIV Situação deplorável em que ficou o Rio 

Grande . 
LXV", LXVI Vislubres e promessas de realizações de- 

mocráticas, e entliuí-iasmos c decepções 
populares, 
alambrados. . . . Leis oppressoras da Republica. 

LXVTJ Chimango ? (Personagem creacla por Amaro Juve- 
nal). 
i/X\'IIJ ordem e nro- 

gvcsso ;.emma positivista; aversão ás liberdades 

publicas. 
LXIX.... E"omatungo 
do andar da guri- 

zada Rcfere-se á inveterada pratica de noraoa- 

rem-se, para os cargos administrati- 
vos e electivos do interior do Estado, 
neóphytos em politica, recém saídos 
(las ecolas superiores do mesmo Esta- 
do, ou das de outros que vêm bus- 
cando adhesão iucontUcíonal ao go- 
verno . 
ÍjXX, LXXI, LXXII. . . Tolerâncias do Chimango a esta ordem 

de cousas, de que é creador e susten- 
táculo. 

>ri:"-tre-Escola \ugusto Comte. 

LXXIV, V, A^I. VIT, 

VIII, IX... Refereni-ce ás familias tradicionalmen- 

te federalistas, cujos filhos vão culti- 
vando com orgulho as opiniões c os 
ódios paternos e perpetuando a velha 
upposição até victoria final. 



rxxxií Lxxxii? 
i.xxxur. Lxxxi\' 

compositor 

LXXXV 

LXXXVr. LXXXYII, 

LXXXVIII... 



Assis Brasil. 

por ser criador de cavallos de carreira. 
Educação cívica dos rio-grandenses. 

Pinto da Rocha e sua campanha jorna- 
listica pela "Gazeta do Commercio", 
em favor da cruzada democrati-n 
(1908). 



GAUCHADAS E GAUCHISMOS 



185 



J^<trophes 

LXXXIX 

XC GeiuMalito. . . 



XCI, XCri.... Desboc- 

cado. . . . 
XCIír. TV. Y, VT, YIT. 

VITI 

Cl 



CII 

CIIL IV. V, VI. 

cvíi, cvrii 



CIX. 



cx. 



CXI, CXII.. 

CXII Milico. 

Roliiilia , 



CXIV. CXV... 
CXVI, CXVIT. 



cxvrij... 

Canas 



Outros meios terá cTe 
o tratar mal .... 



ExpHcações 

As eleições de 1908 em que foi candidato 
J'^ernaiido Abbott . 

líaphael Cabeda com os Federalistas que 
deram a maior parte dos votos ao can- 
didato democrata. 

Fernando Abbott. 

rncidentes e episodi' s da eleição. 

Assis Brasil se recolhe ao silencio alguns 
annos. 

Campanha eleitoral libertadora de 192Í2. 

Eleição do Novembro de 1922. 

Emposse governamental da entidade fan- 
tástica — António Chimango — e in- 
dignação geral. Usurpação pelo Chi- 
liiango. 

A revolta da Serra com Menna Barreto 
e Portinho á frente para crear o irre- 
mediável : a revolução em todo o Es- 
tado. 

Os generaes da Revolução Libertadora 
de 1923: FelHppe Portinho, Honório 
Lemes. Zeca Netto Estacio Azambuja. 

A dictadura andou prestes a cair. 

Minif-tro da Guerra. 

? (Personagem creada pela facécia do 
povo brasileiro) . 

Armísficio e suas obrigações. 

Reunião politica, em Bago, para a paz. 
e acordo para resolver a questão da 
maioria dos suffragios por eleição 
que se realizaria sob os auspícios e 
garantia do Governo Federal. 

Victoria da Revolução Libertadora quan- 
to aos princípios. 

Constituição de 14 de Julho, que foi, em 
parte, reformada pelo dictador, a exi- 
gências da Revolução. 



Refere-se 
mango . 



á costumada má fé do Chi- 



ÍNDICE 



ÍNDICE 



Prefacio da i.' edição 
Prefacio da 2.' edição 



Pág. 
o 

g 



VISÕES DO CAMPO 



O Gaúcho 17 

O Retirante 18 

Meus Pagos 20 

A Diligencia 21 

A Comitiva 22 

A Chinoca 23 

A Tapera 24 

O Veterano 26 

O Trovador do Pampa 27 

Passo a Passo 29 

Os Mestres da Peleia 3^ 

O Pampeiro 3^ 

O Fogo Sagrado 33 

O Rei do Pago 35 

Arte Gaúcha 37 

O Tropeiro 38 

O Meu Emblema 4° 

Amor e Adoração 42 

É Mysterio 44 

O Ombú 46 

O Palia 49 

A Figueira do matto 55 



|()() GAUCHADAS K GALXIIISMOS 



CHIMANGADAS 



TAg. 



Mal Comparando (poema histórico gaúchesco) . 6i 

Cartas de um Revolucionário 95 

!.■' Carta. Aceguá, Abril de 1923 95 

2.' Carta. Candiota, Junho de 1923 99 

3.' Carta. Caçapsva, Julho de 1923 105 

4.^' Carta. S. Sepé, Agosto de 1923 112 

5.' Carta. Lavras, Septembro de 1923 118 

TROVAS 

Nostalgias 132 

As Guritas ' 136 

Ternuras de um Guasca 138 

Numa Roda de Tyranna 141 

Por Gratidão 144 

Minha Tropilha de todos os Pêlos 147 

As Estradas 154 

O Bicharêdo 156 

Jardim de Amor 159 

Versos em Penca 163 

Nas Carreiras 171 

Canção da Taba 177 

Interpretação do poema. — Mál comparando... 181 



^t<r 



/^\ 



6IND1NG SECT. ME ^ 



PQ Piá do Sul 

9697 Gauchadas e gaúchismos 

P47G3 2. ed. , accrescida 

1920 



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